CGADB

A história da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) dá-se no ano de 1930

A história da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil – CGADB dá-se no ano de 1930. Após três décadas do surgimento no país das Assembléias de Deus, devido ao estupendo crescimento do movimento pentecostal iniciado pelos missionários Daniel Berg e Gunnar Vingren, os pastores das Assembleias de Deus resolveram que já era tempo de se criar uma organização que estabeleceria o espaço para discussão de temas de máxima relevância para o crescimento da denominação.

A CGADB foi idealizada pelos pastores nacionais, visto que a igreja estava na responsabilidade dos missionários suecos e deram os primeiros passos em reunião preliminar realizada na cidade de Natal-RN em 17 e 18 de fevereiro do ano de 1929. A primeira Assembleia Geral da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil foi realizada entre os dias 5 e 10 de setembro, onde se reuniram a maioria dos pastores nacionais e os missionários que atuavam no país. Foi nessa Assembléia Convencional que os missionários suecos transferiram a liderança das Assembleias de Deus no Brasil para os pastores brasileiros. Nesta mesma reunião que liderança nacional decidiu-se por se criar um veículo de divulgação do evangelho e também dos trabalhos então realizados pelas Assembleias de Deus em todo o território nacional. Estava lançada a semente do que viria a ser o atual jornal Mensageiro da Paz. Com a rápida repercussão nacional, o periódico, então dirigido pelo missionário Gunnar Vingren, tornou-se o órgão oficial das Assembléias de Deus no Brasil.

As primeiras resoluções emanadas em Assembléias Convencionais de pastores das Assembleias de Deus, foram emitidas nas Assembleias Gerais dos anos de 1933 a 1938. Nessas Assembleias Gerais deram-se longos debates sobre as características e identidade da igreja, o que hoje são por nós conhecidas como “usos e costumes”. As primeiras resoluções também tratavam acerca de alguns pontos doutrinários, principalmente no que se referia a conduta dos obreiros e que deveriam caracterizar a igreja sendo adotados por todas as Assembleias de Deus no Brasil. A igreja experimentava um extraordinário crescimento e chegava aos mais longínquos recantos do país. Entre os anos de 1938 e 1945, quando deu-se os rumores e finalmente o transcorrer da 2ª Grande Guerra Mundial, os lideres das Assembleias de Deus tinham enormes dificuldades de se locomoverem pelo país, e por causa desse fator não foram realizadas nenhuma assembléia convencional dos anos de 1939 e 1945.

Finalmente em 1946, em Assembleia Geral Ordinária realizada na cidade de Recife-PE os pastores das Assembleias de Deus de todo o país decidiram-se por tornar a CGADB em uma pessoa jurídica, com a responsabilidade de representar a igreja perante as autoridades governamentais, bem como a todos os segmentos da sociedade. O primeiro Estatuto apresentou como principais objetivos da CGADB: “promover a união e incentivar o progresso moral e espiritual das Assembléias de Deus; manter e propugnar o desenvolvimento da Casa Publicadora das Assembleias de Deus” e principalmente a aproximação das Assembléia de Deus no país: “Nenhuma Assembleia de Deus poderá viver isoladamente, sendo obrigatória a interligação das Assembléias de Deus no Brasil, com a finalidade de determinar a responsabilidade perante a Convenção Geral e perante as autoridades constituídas”. As Assembleias Gerais realizadas nas décadas seguintes foram marcadas por discussões e debates sobre temas relacionados as doutrinas bíblicas básicas e por projetos de desenvolvimento da Obra de Deus.

Em 1989, a CGADB promoveu uma Assembleia Geral Extraordinária na cidade de Salvador-BA, quando foi decidido pelo desligamento dos pastores do Ministério de Madureira, por força de dispositivo estatutário que impede ao ministro pertencer a mais de uma convenção nacional. Os ministros do Ministério de Madureira optaram por manter a existência da então recém criada Convenção Nacional de Ministros da AD de Madureira (CONAMAD), abrindo com isso uma dissidência na igreja.

Os anos 90 marcam uma nova fase de crescimento das Assembleias de Deus no Brasil. Em maior parte, os resultados apresentados nesse novo período de crescimento dão-se, claramente, decorrente de medidas tomadas pela CGADB durante essa década. Sob a liderança do Pr. José Wellington Bezerra da Costa, a principal decisão foi a implantação do projeto Década da Colheita, um esforço evangelístico que envolveu praticamente toda a igreja no Brasil. O censo do IBGE de 2000 mostrou, em comparação com último censo de 1991, o quando a AD cresceu nos últimos dez anos do século 20.

Assombrada pelo vultuoso crescimento da igreja e pela necessidade de um espaço mais adequado para o desenvolvimento de suas atividades, a CGADB inaugurou no dia 26 de novembro de 1996, sua nova sede, no bairro da Vila da Penha, cidade do Rio de Janeiro – RJ, em um moderno edifício de 4 andares, onde estão disponibilizadas salas administrativas e um auditório com capacidade para 700 pessoas, além de anexo onde está instalada a EMAD – Escola de Missões das Assembleias de Deus e uma ampla loja da CPAD – Casa Publicadora das Assembléias de Deus.

Neste início de século 21, a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil continua implantando um projeto de desenvolvimento de sua participação mais ativa na sociedade do nosso querido país. Criou-se o Conselho Político da CGADB que tem por finalidade coordenar o projeto “Cidadania AD Brasil”, que desenvolve a consciência política na liderança das Assembleias de Deus no Brasil e gerencia o lançamento de candidatos oficiais da denominação nos pleitos eleitorais em todo Brasil. Hoje as Assembleias de Deus contam com 22 deputados federais, 38 deputados estaduais e 1.010 vereadores. Na área cultural, a CGADB inova com o ambicioso projeto de implantação da Faculdade Evangélica de Ciências, Tecnologia e Biotecnologia da CGADB – FAECAD, oferecendo a princípio quatro cursos: administração de empresas, comércio exterior, direito e teologia. A FAECAD já obteve o reconhecimento do MEC e as atividades da mesma começaram no mês de agosto de 2005.

Os frutos de um trabalho volumoso que vem sendo empreendido na liderança do Pr. José Wellington Bezerra da Costa, juntamente com a Mesa Diretora, continuam a serem colhidos pela Convenção Geral e face as comemorações dos 75 anos de existência de nossa querida CGADB, temos no Senhor Jesus, o galardoador fiel, nossa gratidão. E a cada dia que olhamos para o gigantesco trabalho que tem se tornado a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, devemos louvar ao Senhor, rendendo-lhe a mais tenra adoração e gratidão, e ainda sim, pedir graça ao bom Deus no intuito de continuar iluminando nossa liderança maior, a fim de que esta obra faça avançar o Reino de Deus na Terra. Diz a Palavra de Deus: “Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças.” Ec 9.10.

Fonte: CGADB

 https://adbezerrospe.wordpress.com

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HARPA CRISTÃ – Resumo Histórico

A Harpa Cristã o hinário oficial das Assembleias de Deus no Brasil

Eusébio de Cesaréia (260-340) é considerado, com justa razão, o pai da História da Igreja Cristã. O que poucos estudiosos sabem é que ele foi também um grande apreciador da verdadeira música sacra. Embora vivesse num período em que esta apenas ensaiava seus primeiros passos, pôde Eusébio externar-se muito emocionado:

Nós cantamos o louvor de Deus com saltério vivo. Porque mais agradável e caro a Deus do que qualquer instrumento é a harmonia da totalidade do povo cristão. Nessa cítara é a totalidade do corpo, por cujo movimento e ação a alma canta hinos adequados a Deus, e nosso salteio de dez cordas é a veneração do Espírito Santo pelos cinco sentidos do corpo e as cinco virtudes do espírito.

Nós, pentecostais, também temos o nosso saltério; a Harpa Cristã . Ao longo dessas décadas de avivamento e visitações contínuas ao cenáculo, vimos caracterizando-nos como uma fervorosa comunidade de adoração. E não foi sem motivo que os pioneiros oficiais houveram por bem denominar nosso hinário oficial de Harpa Cristã . Vejamos, pois, a natureza e a formação de nosso hinário.

I. O QUE É A HARPA CRISTÃ

A Harpa Cristã é o hinário oficial das Assembleias de Deus no Brasil. Ela foi especialmente organizada com o objetivo de enlevar o cântico congregacional e proporcionar o louvor a Deus nas diversas liturgias da igreja: culto público, santa ceia, batismo, casamento, apresentação de crianças, funeral, etc.

A sua primeira finalidade é transformar nossas igrejas e congregações em comunidades de perfeita adoração ao Único e Verdadeiro Deus. Não pode haver igreja sem louvor.

II. O INÍCIO DO CÂNTICO CONGREGACIONAL DA ASSEMBLEIA DEUS NO BRASIL

Em seus primórdios, a Assembleia de Deus usava os Salmos e Hinos , que também era utilizado por diversas igrejas evangélicas históricas. Mas em virtude de nossas peculiaridades doutrinárias, os pioneiros sentiram a necessidade de um hinário que também enfocasse as doutrinas pentecostais.

III. O CANTOR PENTECOSTAL

Em virtude dessa premência, foi lançado em 1921, o Cantor Pentecostal . Impresso pela tipografia Guajarina, sob a orientação editorial de Almeida Sobrinho, tinha o pequeno hinário 44 hinos e 10 corinhos.

O Cantor Pentecostal foi distribuído pela Assembleia de Deus de Belém, PA, que, naquela época, achava-se localizada na Travessa 9 de janeiro, 75.

IV. O SURGIMENTO DA HARPA CRISTÃ

Em 1922, foi lançada em Recife, PE, a primeira edição da Harpa Cristã, que viria a se tornar no hinário oficial das Assembleias de Deus. Sob a orientação editorial do Pastor Adriano Nobre, teve uma tiragem inicial de mil exemplares, e foi distribuída para todo o Brasil pelo missionário Samuel Nyström.

A segunda edição da Harpa Cristã , já como 300 hinos, foi impressa nas Oficinas Irmãos Pangeti, no Rio de Janeiro, em 1923. Já em 1932, tinha a Harpa Cristã 400 hinos.

V. A ELABORAÇÃO DOS HINOS

Na elaboração de nossos hinos, muito contribuiu o missionário Samuel Nyström. Como não tivesse perfeito conhecimento da língua portuguesa, ele traduziu, literalmente, diversas letras da riquíssima hinódia escandinava. Para que os poemas fossem adaptados às suas respectivas músicas, foi necessário que o Pastor Paulo Leivas Macalão empreendesse semelhante tarefa. Por isso, tornou-se o Pastor Macalão no principal elaborador e adaptador de nosso hinário oficial.

VI. A HARPA CRISTÃ COMO LETRA E MÚSICA

Em 1937, a Convenção Geral das Assembleias de Deus, reunida em São Paulo , nomeou uma comissão para editar e imprimir a primeira Harpa Cristã com música. Desta comissão faziam parte: Emílio Conde, Samuel Nyström, Paulo Leivas Macalão, João Sorhein e Nils Kastiberg. Neste empreendimento, também tomou parte ativa o Dr. Carlos Brito,

VII. A HARPA CRISTÃ COM 524 HINOS

Com o passar dos tempos, outros hinos foram sendo acrescentados até que o nosso hinário oficial atingisse 524 hinos. Número esse que, durante várias décadas, caracterizou a Harpa Cristã.

Até 1981, quase todos os hinos da Harpa Cristã já haviam sido revisados. Os mais altos foram transpostos para tons mais acessíveis ao cântico congregacional.

VIII. A HARPA CRISTÃ ATUALIZADA

Em 1979, mediante proposta apresentada pelo Pastor Adilson Soares da Fonseca, o Conselho Administrativo da CPAD, cumprindo resolução da Assembleia Geral da CGADB reunida em Porto Alegre , naquele ano, nomeou uma comissão para proceder a uma revisão geral da música e da letra da Harpa Cristã.

A comissão era formada pelos seguintes Pastores: Paulo Leivas Macalão, Túlio Barros Ferreira, Nicodemos José Loureiro, Antonio Gilberto, e João Pereira. Nesta empreitada, também tomou parte ativa o Pastor e consagrado poeta Joanyr de Oliveira. Em termos técnicos, os trabalhos contaram com dois obreiros especializados: João Pereira, na correção e adaptação da música; e Gustavo Kessler, na revisão das letras.

Lançada em 1992, a Harpa Cristã Atualizada foi aceita em muitas igrejas, mas a maioria optou por ficar com a Harpa Tradicional. De qualquer forma, a experiência serviu para rever a hinódia pentecostal, tornando-a mais viva e participativa em nossas reuniões.

IX. A HARPA CRISTÃ AMPLIADA

Tendo em vista as necessidades de nossa igreja, a CPAD, sob a direção executiva de Ronaldo Rodrigues de Souza, compreendeu ser urgente a ampliação da Harpa Cristã tradicional. E, sim, foram acrescentados mais 116 hinos a fim de atender a todas as exigências cerimoniais e litúrgicas da igreja.

A Harpa Cristã Ampliada , lançada em 1999, com 640 hinos, representa mais um avanço da já riquíssima hinódia pentecostal.

CONCLUSÃO

A Harpa Cristã é o hinário oficial das Assembleias de Deus com 640 hinos que são entoados nos cultos congregacionais. A primeira versão conhecida com letra e musica data de 1929 com originais manuscritos e copiada em processo mimeográfico.

Em 1941 teve sua primeira edição impressa, tendo participado deste trabalho os irmãos Samuel Nyström, Paulo Macalão, Jahn Sorheim e Nils Katsberg.

Em Janeiro de 1999 a CPAD – Casa Publicadora das Assembleias de Deus, publicou a Harpa Cristã, Revisada e Ampliada com 640 hinos.

Rogamos a Deus, pois, para que a Harpa Cristã continue a levar o Evangelho de Cristo e o avivamento a todos os cantos de nosso país. Cantando também se evangeliza. Cantando também se promove o avivamento. Não foi o que fizeram nossos pioneiros?

PS : Existem hoje, no Brasil, diversas denominações evangélicas, de cunho pentecostal, que utilizam o nosso hinário. Essas igrejas, muitas delas neo-pentecostais, tem encontrado em nosso cancioneiro não somente a melodia, mas também a mensagem que faz a diferença no mundo espiritual.

Abaixo, os diversos modelos de Harpa Cristã, editadas pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus no Brasil – CPAD. Organizada com objetivo de elevar o cântico congregacional e proporcionar um melhor louvor a Deus, a Harpa Cristã, com um total de 640 hinos, representa mais um avanço que auxiliará na divulgação do evangelho através do louvor a Deus. Além das Harpa Cristã , edições variadas, há também as publicadas junto com as diversas Bíblias, de cores e tamanho variados, agradando a todo o tipo de faixa etária incluídos de nossas igrejas.

Harpa Cristã com Música Mi Bemol

Esta harpa é para instrumentos de sopro que são do tom de Mi bemol: Requinta, Sax Alto, Tuba, Clarone Alto, Sax Horn, Genis, Sax Barítono. Da mesma forma que a Harpa em Si Bemol, esta Harpa só tem a clave de Sol, com duas notas somente, a primeira nota é a melodia do hino, a segunda seria a segunda voz do hino, no caso, a voz do contralto. Nesta Harpa, não possui a letra dos hinos e nem Cifras.

Harpa Cristã com Música Si Bemol (Bb)

Esta harpa é para instrumentos de sopro que são do tom de Si Bemol: Trompete, Clarinete, Sax Tenor, Sax Soprano, Barítono, Tuba. Nesta harpa só tem a clave de Sol, com duas notas somente, a primeira nota é a melodia do hino, a segunda seria a segunda voz do hino, no caso, a voz do contralto. Nesta Harpa, não possui a letra dos hinos e nem Cifras.

Texto extraído do Manual da Harpa Cristã, edições CPAD, 1ª edição, 1999, pgs. 11/16.

Movimento Pentecostal

REFLEXÕES A PROPÓSITO DO SEU PRIMEIRO CENTENÁRIO

Alderi Souza de Matos

Introdução

O moderno movimento pentecostal é considerado por muitos estudiosos o fenômeno mais revolucionário da história do cristianismo no século 20, e talvez um dos mais marcantes de toda a história da igreja. Em relativamente poucas décadas, as igrejas pentecostais reuniram uma imensa quantidade de pessoas em praticamente todos os continentes, totalizando hoje, segundo cálculos de especialistas, cerca de meio bilhão de adeptos ao redor do mundo. Mais do que isso, o pentecostalismo acarretou mudanças profundas no panorama cristão, rompendo com uma série de padrões que caracterizavam as igrejas protestantes há alguns séculos e propondo reinterpretações muitas vezes bastante radicais da teologia, do culto e da experiência religiosa. Exatamente agora, sem que muitos se dêem conta – inclusive muitos pentecostais – esse vasto e influente movimento está completando um século. Rigorosamente falando, o pentecostalismo como um fenômeno distinto surgiu nos últimos anos do século 19 ou nos primeiros do século 20. Todavia, por algum tempo ele se manteve relativamente modesto e circunscrito às fronteiras dos Estados Unidos. Seu crescimento vertiginoso e sua difusão internacional ocorreram a partir do famoso Avivamento da Rua Azusa, em Los Angeles, que teve início em abril de 1906.

No Brasil, a magnitude do pentecostalismo é evidente a todos os observadores. Há muitos anos esse segmento congrega a maioria dos protestantes. De acordo com o Censo de 2000, dos 26,2 milhões de evangélicos brasileiros, 17,7 milhões são pentecostais (67%).[1] O crescimento vertiginoso que o protestantismo nacional tem experimentado em décadas recentes reflete principalmente o que ocorre nas igrejas pentecostais. Por causa dos seus pressupostos explícitos ou implícitos, esse movimento tem uma notável capacidade de reinventar-se a cada geração, assumindo formas novas e inusitadas. Isso já ocorreu no passado e ocorre novamente agora com o neopentecostalismo, um fenômeno nitidamente brasileiro. Assim como está se tornando comum falar em protestantismos, também se faz cada vez mais necessário falar em pentecostalismos, tal a diversidade do movimento. Outro fenômeno digno de nota – alvissareiro para alguns e inquietante para outros – é a adoção da cosmovisão pentecostal nas igrejas históricas, quer a católica, quer as protestantes, através do chamado movimento carismático ou de renovação.

Por essas e outras razões, é oportuno fazer-se uma nova reflexão sobre esse tema já tão estudado. O enorme crescimento do pentecostalismo e o impacto que tem causado nas igrejas e na sociedade, particularmente no Brasil, tornam necessário um reexame da história e características, bem como das possibilidades e limitações, desse movimento que completa um século de trajetória histórica. A argumentação deste artigo obedecerá a seguinte seqüência: inicialmente será apresentado um panorama dos antecedentes do pentecostalismo e das origens históricas e teológicas desse movimento nos Estados Unidos; em seguida, se fará uma breve síntese da história, evolução e peculiaridades do pentecostalismo brasileiro; por fim, será feita uma avaliação dos problemas e contribuições do movimento, sugerindo-se como as igrejas reformadas devem relacionar-se com ele.

1. Antecedentes na história da igreja

Assim como ocorre em outras religiões, o cristianismo tem, ao longo da sua história, testemunhado muitas vezes em suas fileiras a ocorrência de manifestações de entusiasmo religioso, em especial os movimentos chamados carismáticos. O termo “entusiasmo” (do grego en = “em” e theós = “Deus”) aponta para situações em que as pessoas afirmam receber revelações diretas de Deus, muitas vezes acompanhadas de êxtases místicos, visões e outros fenômenos associados a uma experiência religiosa de grande fervor e intensidade. Por sua vez, a palavra “carismático” lembra os carismas ou dons espirituais mencionados no Novo Testamento, particularmente aqueles extraordinários ou espetaculares, tais como profecias, línguas estranhas, curas e milagres diversos.

O primeiro exemplo dessas manifestações pode ser constatado na igreja de Corinto, nos dias apostólicos. Ao contrário do que parece ter ocorrido nas outras igrejas ligadas aos apóstolos, havia entre os cristãos coríntios um grupo de pessoas com inclinações místicas, que alguns estudiosos denominam os “espirituais”, os quais valorizavam grandemente certas experiências e práticas religiosas, tais como profecias e línguas extáticas, e tinham a tendência de menosprezar os cristãos que não apresentavam as mesmas manifestações.[2] Embora o próprio apóstolo Paulo indique ter tido, ele mesmo, algumas experiências espirituais incomuns, ele se mostra discreto em relação a elas e insiste em não torná-las uma norma para todos os cristãos. Ao mesmo tempo, Paulo demonstra sua preocupação com os excessos e distorções freqüentemente associados a tais práticas, como se pode ver em 1 Coríntios 12–14.

O mais notório movimento carismático do cristianismo antigo foi o montanismo, surgido na Frigia, Ásia Menor, na parte posterior do 2° século (década de 170). Seu fundador, Montano, fez a alegação de ser o porta-voz do Espírito Santo que iria anunciar a volta de Cristo e a descida da Nova Jerusalém. Apelando para visões e profecias, ele e duas discípulas, Priscila e Maximila, exortaram os cristãos a se santificarem como preparação para o final dos tempos. A “Nova Profecia”, como o movimento se autodenominou, desprezou a “igreja católica”, com seus bispos, suas Escrituras e sua tradição nascente, alegando ter uma autoridade vinda diretamente do Espírito Santo. Excluídos da igreja majoritária, os montanistas organizaram-se separadamente, subsistindo por algum tempo. No final da vida, Tertuliano (c.160-c.225), um dos mais brilhantes e influentes teólogos cristãos dos primeiros séculos, nutriu simpatias por esse movimento. Sendo partidário de um cristianismo rigoroso e disciplinado, esse pai da igreja sentiu-se atraído pela moralidade ascética dos adeptos da Nova Profecia.

A experiência negativa com os montanistas e suas atitudes contestadoras fez com que a igreja desestimulasse fortemente as manifestações dos dons espirituais de natureza espetacular e miraculosa, principalmente quando tais dons colocavam em risco a autoridade da igreja e de seus líderes ou sua interpretação da Bíblia. Não obstante, ao longo dos séculos, a mentalidade entusiástica continuou a manifestar-se esporadicamente no seio do cristianismo, dando origem a grupos com diferentes graus de ortodoxia, como os cátaros, os begardos e beguinas, e o apocaliptismo de Joaquim de Fiore, no século 12. No século 16, os reformadores protestantes se defrontaram repetidamente com pessoas e grupos, principalmente anabatistas, que apelavam para revelações diretas de Deus e tendiam a relativizar a importância das Escrituras. Esses indivíduos receberam os epítetos de “entusiastas”, “libertinos”, “fanáticos” e “espiritualistas”, sendo objeto de alguns dos escritos mais contundentes de Lutero, Calvino e outros líderes.[3]

O fato é que o protestantismo, devido à sua insistência em direitos como o livre exame das Escrituras, o sacerdócio de todos os cristãos e a liberdade de expressão e associação, sem querer abriu um espaço para o surgimento dessas manifestações. Desde então, o entusiasmo religioso se tornou um fenômeno relativamente freqüente nas hostes protestantes. Alguns exemplos mais conhecidos foram os quacres ingleses (século 17), com sua ênfase na “luz interior”, os avivamentos dos séculos 18 e 19, tanto na Europa quanto na América do Norte, e o ministério de Edward Irving (século 19), um pastor presbiteriano escocês que trabalhou em Londres e é considerado o precursor do moderno movimento carismático.[4] Apesar dos seus problemas, esses movimentos com freqüência revelavam insatisfações legítimas com a igreja oficial e o desejo de uma espiritualidade mais profunda.

2. Raízes na tradição metodista

O movimento pentecostal surgiu no ambiente religioso altamente dinâmico e volátil dos Estados Unidos no século 19. O cenário religioso das colônias inglesas da América do Norte havia sido relativamente estável até meados do século 18. Todavia, com o passar do tempo as influências do pietismo alemão, do puritanismo e do movimento metodista se somaram para produzir mudanças. Nas décadas de 1730 e 1740, a ocorrência do Primeiro Grande Despertamento trouxe revitalização às igrejas protestantes, mas, ao mesmo tempo, produziu um tipo diferente de cristianismo, mais emocional, mais independente das antigas estruturas e tradições, mais desejoso de novas formas de experimentar o sagrado. Essas ênfases se intensificaram em muito com o surgimento do Segundo Grande Despertamento, ocorrido na região da fronteira oeste durante as primeiras décadas do século 19. Sob a influência de pregadores como Charles G. Finney (1792-1875), houve um progressivo questionamento da teologia reformada tradicional, com seu enfoque na soberania de Deus, e uma ênfase crescente na liberdade, iniciativa, capacidade de decisão e experiência pessoal, em sintonia com a nova cultura americana que então se consolidava.

Desde então, o avivalismo, ou seja, atividades voltadas para a promoção de uma vida espiritual mais intensa e fervorosa, se tornou uma característica permanente do cenário religioso norte-americano. Essa preocupação encontrou as suas expressões mais visíveis nos “camp meetings” (conferências de avivamento) das zonas rurais e nas grandes campanhas evangelísticas urbanas. Essa poderosa efervescência espiritual também resultou no surgimento de um sem número de novos movimentos religiosos, alguns dentro dos limites do protestantismo histórico e outros bastante distanciados do mesmo, como shakers, mórmons e testemunhas de Jeová.

Os estudiosos têm adotado diferentes abordagens na busca de compreender a gênese do pentecostalismo. Em um artigo recente, Leonildo Silveira Campos privilegia o enfoque sociológico, destacando como as peculiaridades culturais e as transformações sociais e econômicas dos Estados Unidos no século 19 contribuíram para a ocorrência do fenômeno.[5] Outros autores têm dado maior ênfase às matrizes teológicas do movimento, acentuando que, apesar de toda a sua especificidade, o pentecostalismo é fruto de desdobramentos doutrinários ocorridos durante quase um século no cenário protestante norte-americano.[6]

Apesar da possibilidade de influências como o puritanismo e o piestismo, a maioria dos autores considera que a origem básica do movimento pentecostal se encontra no metodismo wesleyano, e especificamente na doutrina mais característica de João Wesley: a “inteira santificação” ou “perfeição cristã”, um conceito que ele também descrevia em termos de “a mente de Cristo”, “plena devoção a Deus” ou “amor a Deus e ao próximo”.  Wesley via essa experiência como um alvo a ser buscado ao longo da vida cristã, embora tenha hesitado em concluir se era fundamentalmente um processo ou um evento instantâneo. Um desdobramento significativo ocorreu através do seu sucessor designado, John Fletcher, que começou a descrever a plena santificação como um batismo do Espírito Santo em termos do Pentecoste do Novo Testamento. Ao apontar a diferença entre o seu entendimento e o de Wesley, ele disse o seguinte:

Vocês encontrarão as minhas idéias sobre essa questão nos sermões do Sr. Wesley sobre Perfeição Cristã e sobre o Cristianismo Bíblico, com a seguinte diferença: eu distinguiria mais precisamente entre o crente batizado com o poder pentecostal do Espírito Santo e o crente que, como os apóstolos após a ascensão de nosso Senhor, ainda não está revestido desse poder.[7]

Outra ênfase peculiar de Fletcher, novamente em contraste com Wesley, foi sua divisão da história em três dispensações: do Pai, do Filho e do Espírito Santo, esta última tendo iniciado no Pentecoste e se estendendo até a segunda vinda de Cristo. É significativo que essa perspectiva também passou a ser usada para descrever os estágios de desenvolvimento espiritual pelos quais cada indivíduo devia passar. Em suma, a orientação cristocêntrica, centrada na tradição bíblica paulina e joanina, que era característica de Wesley, passou a ter em Fletcher uma orientação pneumatocêntrica e lucana, com destaque especial ao livro de Atos dos Apóstolos. Todavia, a transição efetiva de uma cosmovisão para a outra somente iria se consumar no contexto norte-americano.[8]

Durante o Segundo Grande Despertamento (primeiras décadas do século 19), o metodismo experimentou um crescimento sem precedentes nos Estados Unidos, só igualado pelos batistas. Mais que a expansão numérica, as idéias e práticas metodistas se infiltraram em muitas outras denominações. Entre essas idéias e práticas podem ser citadas a pregação extemporânea com forte conteúdo emocional, os apelos insistentes seguidos de assistência espiritual aos convertidos ao término das reuniões, a participação de mulheres falando e orando em reuniões para ambos os sexos, e a forte ênfase na teologia arminiana. Em conseqüência disso, os historiadores falam da “arminianização da teologia americana” nesse período, com a resultante rejeição da teologia calvinista. Um dos expoentes dessa teologia foi o mencionado evangelista Charles Finney, de origem presbiteriana.

A partir da década de 1830, a crescente insistência na perfeição cristã resultou em uma cruzada ou avivamento da “santidade” (em inglês “holiness”), que teve como personagem central Phoebe Palmer, esposa de um médico de Nova York. Por muitos anos ela liderou reuniões semanais para a promoção da santidade, publicou um influente periódico e viajou extensamente como evangelista itinerante na América do Norte e na Europa. O tema da santidade saturou a literatura da época, sendo publicadas inúmeras obras sobre o assunto. No Oberlin College, em Ohio, onde Finney era professor de teologia, surgiu o chamado “perfeccionismo de Oberlin”, que dava forte destaque ao ativismo social. O avivamento de 1857-1858, considerado por alguns o Terceiro Grande Despertamento, difundiu de modo especial os ideais dos movimentos de santidade e de perfeição cristã. Desse modo, o contexto avivamentista norte-americano moldou o pensamento metodista em novas direções. Exemplo disso foi a tendência de resolver a tensão wesleyana entre crise e processo mediante uma crescente ênfase no caráter instantâneo da inteira santificação como uma “segunda obra da graça”. A santidade passou a ser vista como o pressuposto e não como o alvo da vida cristã.[9]

Um desdobramento significativo ocorreu quando, nas décadas posteriores à Guerra Civil (1861-1865), o discurso e a simbologia do Pentecoste neotestamentário começaram a dominar cada vez mais o movimento de santidade e suas igrejas. A santidade cristã começou mais e mais a ser entendida em termos do batismo com o Espírito Santo, sendo considerada uma “segunda bênção”, distinta da conversão. Ao mesmo tempo deu-se ênfase crescente ao Pentecoste como o arquétipo dos avivamentos e à importância de resgatar a vitalidade e o poder do cristianismo primitivo. Outros destaques foram as profecias, geralmente no sentido sobrenatural e extático, as curas e os milagres. A hinódia também foi afetada, tendo surgido vários “hinários pentecostais”.

Nessa época, muitas igrejas metodistas e de outras denominações que abraçaram o movimento “holiness” e sua teologia passaram a criar as suas próprias associações. A primeira foi a Associação Nacional Holiness, criada em 1867 em Vineland, Nova Jersey, e a maior delas a Associação Holiness de Iowa, de 1879. Com o passar do tempo, alguns líderes holiness passaram a falar no “batismo com o Espírito Santo e com fogo” como sendo uma terceira experiência na vida cristã, distinta tanto da conversão quanto da plena santificação. Nos últimos anos do século 19, surgiram as primeiras denominações do movimento de santidade: a Igreja de Deus em Cristo (1897), em Lexington, Mississipi, e a Igreja Pentecostal Holiness (1898), em Goldsboro, Carolina do Norte. Ao aproximar-se o século 20, todas essas correntes do movimento de santidade tinham em comum uma mentalidade, linguagem e simbologia “pentecostal”, valorizando altamente a experiência do batismo “com”, “do” ou “no” Espírito Santo narrada em Atos 2. Todavia, ainda faltava um último passo a ser dado nessa evolução doutrinária.

3. Primórdios do movimento pentecostal

No ano de 1900, um pregador metodista influenciado pelo movimento de santidade, Charles Fox Parham (1873-1929), criou um instituto bíblico na cidade de Topeka, Estado do Kansas, na região central dos Estados Unidos. Há cerca de dez anos ele vinha ensinando que a glossolalia – falar em línguas desconhecidas ou estrangeiras – devia acompanhar esse batismo no Espírito Santo tão popular nos círculos holiness. Por algum tempo, ele chegou a acreditar que os crentes receberiam o conhecimento sobrenatural de línguas terrenas para que pudessem rapidamente evangelizar o mundo antes da volta de Cristo. Já havia ocorrido a manifestação de línguas em anos anteriores nos Estados Unidos, assim como em outros períodos da história do cristianismo. A novidade na teologia de Parham é que ele foi o primeiro a considerar o “falar em línguas” como a evidência inicial do batismo no Espírito Santo. Foi essa característica que se tornou a marca distintiva do movimento pentecostal.

No dia 31 de dezembro de 1900, Parham e seus alunos realizaram um culto de vigília em seu instituto bíblico para aguardar a chegada do novo século. Uma evangelista de 30 anos, Agnes Ozman, pediu que lhe impusessem as mãos para que ela recebesse o Espírito Santo a fim de ser missionária no exterior. Ela falou em línguas, fenômeno esse que se repetiu nos dias seguintes com metade das pessoas da escola, inclusive Parham. Nos anos seguintes, Parham deu continuidade ao seu trabalho em várias partes dos Estados Unidos e no Canadá, atraindo milhares de seguidores. Nessa mesma época, ocorreu um movimento semelhante na Grã-Bretanha, que ficou conhecido como “o grande avivamento do País de Gales”. O avivamento galês despertou em muitos o desejo de que um episódio semelhante ocorresse novamente, multiplicando-se as reuniões de oração nesse sentido.[10]

O movimento de Parham recebeu diferentes nomes – fé apostólica, movimento pentecostal ou chuva tardia – todos os quais apontavam para características marcantes da nova cosmovisão. Uma das idéias centrais era o que se denomina “repristinação” ou restauracionismo, isto é, o desejo de voltar aos dias iniciais do cristianismo, aos primeiros tempos da igreja primitiva, idealizados como uma época de maior fervor e plenitude cristã. Associada a isso estava a nova linguagem que dava ênfase ao poder do Espírito, conforme manifesto entre os apóstolos através de sinais e maravilhas. Essa linguagem passou a ser uma distinção importante entre os dois movimentos: enquanto a tradição holiness dava maior destaque à santidade ou santificação, o movimento pentecostal passou a privilegiar o conceito de poder.

O terceiro nome, “chuva tardia”, se tornou especialmente significativo porque por meio dele os pentecostais puderam entender o seu relacionamento tanto com a igreja apostólica quanto com o iminente final dos tempos. Dayton explica a lógica interna do movimento: “O Pentecoste original do Novo Testamento foram as ‘primeiras chuvas’, o derramamento do Espírito que acompanhou a ‘plantação’ da igreja. O pentecostalismo moderno são as ‘últimas chuvas’, o derramamento especial do Espírito que restaura os dons nos últimos dias como parte da preparação para a colheita, o retorno de Cristo em glória”.[11] O mesmo autor observa que a estrutura da “chuva tardia” transforma o maior problema apologético do pentecostalismo – sua descontinuidade com as formas clássicas do cristianismo – em um valioso recurso apologético: “A longa estiagem desde o período pós-apostólico até o tempo presente é vista como parte do plano dispensacional de Deus para as eras”.[12] Em suma, o pentecostalismo foi entendido pelos seus primeiros simpatizantes como o derramamento final do Espírito de Deus que iria preparar a igreja para o derradeiro esforço pela evangelização do mundo antes da volta do Senhor.

3.1 O Avivamento da Rua Azusa

Em 1905, Charles Parham mudou-se para o Texas e iniciou uma escola bíblica em Houston. Um dos estudantes atraídos por essa escola foi um ex-garçom negro e pregador holiness, William Joseph Seymour (1870-1922).[13] Era o período da discriminação racial no sul dos Estados Unidos e Parham era simpatizante desse sistema. Seymour assistia às aulas sentado em uma cadeira no corredor ao lado da sala. Algumas semanas mais tarde, ele recebeu o convite para visitar um pequeno grupo batista em Los Angeles. Esse grupo de afro-americanos, pastoreado por uma mulher, Julia Hutchins, havia sido expulso de sua igreja por esposar doutrinas holiness. Seymour, então com trinta e cinco anos, era filho de escravos, tinha pouca cultura, limitados dotes de oratória e era cego de um olho. Escolheu o texto de Atos 2.4 para o seu primeiro sermão em Los Angeles, embora ele mesmo nunca tivesse falado em línguas. A pastora não gostou do seu ensino, mas ele, acompanhado por boa parte do grupo, passou a fazer as reuniões na casa onde estava hospedado. Quando esta se tornou pequena, foram para outra um pouco maior, na Rua Bonnie Brae, onde o avivamento começou no dia 9 de abril de 1906.[14]

Com o passar dos dias, várias pessoas começaram a falar em línguas, primeiro negros, depois brancos, e finalmente o próprio Seymour teve essa tão-sonhada experiência (12 de abril). Nesse mesmo dia, a varanda da frente dessa residência desabou devido ao peso da multidão. Com isso, os líderes alugaram um rústico edifício de madeira na Rua Azusa, perto do centro de Los Angeles. Esse prédio havia abrigado uma igreja metodista negra e posteriormente tinha sido usado como cortiço e estábulo. Imediatamente as reuniões atraíram a atenção da imprensa. O principal jornal da cidade mandou um repórter ao local e este escreveu ridicularizando os fenômenos presenciados. Esse artigo, intitulado “Estranha babel de línguas”, foi publicado no mesmo dia em que um terremoto seguido de um incêndio destruiu a cidade de San Francisco (18 de abril de 1906), no norte na Califórnia. O artigo funcionou como propaganda gratuita e logo em seguida ocorreu o Avivamento da Rua Azusa.

As reuniões eram eletrizantes e barulhentas. Começavam às 10 horas da manhã e prosseguiam por pelo menos doze horas, muitas vezes terminando às 2 ou 3 da madrugada seguinte. Não havia hinários, liturgia ou ordem de culto. Os homens gritavam e saltavam através do salão; as mulheres dançavam e cantavam. Algumas pessoas entravam em transe e caiam prostradas. Até setembro, 13.000 pessoas passaram pelo local e ouviram a nova mensagem pentecostal. Um bom número de pastores respeitáveis foi investigar o que estava ocorrendo e muitos deles acabaram se rendendo ao que presenciaram.

Uma característica marcante dessas primeiras reuniões foi o seu caráter multi-racial, com a participação de negros, brancos, hispanos, asiáticos e imigrantes europeus. A liderança era dividida entre negros e brancos, homens e mulheres. Um artigo do jornal A Fé Apostólica, fundado por Seymour, dizia no número de novembro de 1906: “Nenhum instrumento que Deus possa usar é rejeitado por motivo de cor, vestuário ou falta de cultura”. Outro artigo informava que em um culto de comunhão que durou toda a noite havia pessoas de mais de vinte nacionalidades. Uma frase comum na época dizia que “a linha divisória da cor havia sido lavada pelo sangue”. Diante da longa e terrível história de racismo e segregação nos Estados Unidos, esse fato só podia deixar encantados os participantes e observadores do avivamento, que viam nisso mais uma prova de que o movimento vinha de Deus.

Todavia, desde o início também houve uma série de problemas: médiuns espíritas tentavam realizar sessões durante os cultos; enquanto muitas pessoas sentiam a presença de Deus, outras ficavam no fundo do salão discutindo e condenando; havia muitas críticas de jornais e de líderes eclesiásticos. Houve também algumas crises internas: choques de personalidade, fanatismo, divergências doutrinárias e separação racial. Com o passar do tempo, Seymour e outros líderes negros acabaram assumindo o controle da missão, excluindo os brancos e os hispanos. O próprio Parham visitou o local em outubro de 1906 e ficou chocado com certas manifestações que presenciou.[15]

Após cerca de três anos de reuniões diárias de alta intensidade, o avivamento entrou em declínio. Depois da morte de Seymour em 1922 e de sua esposa Jennie em 1936, a missão fechou as portas e o edifício foi demolido. Todavia, um novo capítulo na história da igreja havia começado. Há alguns anos foi colocada na praça anexa a esse local histórico uma placa com os seguintes dizeres:

Missão da Rua Azusa – Esta placa comemora o local da Missão da Rua Azusa, que estava localizada na Rua Azusa 312. Formalmente conhecida como Missão da Fé Apostólica, ela serviu como nascedouro do Movimento Pentecostal internacional de 1906 a 1931. O pastor William J. Seymour superintendeu o “Avivamento da Rua Azusa”. Ele pregou uma mensagem de salvação, santidade e poder, recebeu visitantes de todo o mundo, transformou a congregação em um centro multicultural de adoração e comissionou pastores, evangelistas e missionários para levaram ao mundo a mensagem do Pentecoste (Atos 2.1-41). Hoje os membros da Movimento Pentecostal/Carismático totalizam meio bilhão ao redor do mundo. Fevereiro de 1999 – Comissão Memorial da Rua Azusa.[16]

Portanto, o movimento pentecostal tem dois fundadores: Charles Parham e William Seymour. Parham foi o primeiro a fazer a afirmação fundamental de que o falar em línguas era a evidência visível e bíblica do batismo com o Espírito Santo. A importância de Seymour, o discípulo de Parham, reside no fato de que sob sua liderança, através do Avivamento da Rua Azusa, o pentecostalismo se tornou um fenômeno internacional e mundial a partir de 1906. Nos Estados Unidos, as primeiras denominações pentecostais foram, entre outras: a Igreja de Deus de Camp Creek (Carolina do Norte), a Igreja de Deus de Cleveland (Tennessee), a Igreja da Fé Apostólica (Portland, Oregon) e as Assembléias de Deus (Hot Springs, Arkansas). Um líder extremamente importante foi William H. Durham, de Chicago, cidade que teve grande influência na internacionalização do movimento.

3.2 Controvérsias

Desde o início o movimento pentecostal foi muito diversificado, apresentando uma grande variedade de manifestações e ênfases. Isso não é de admirar, visto que o pentecostalismo, por sua própria natureza, podia, a partir das premissas básicas, assumir um grande número de configurações, motivadas principalmente pelos muitos líderes independentes que iam surgindo. Portanto, quase desde o início uma série de controvérsias abalaram o movimento:[17]

3.2.1 A “obra consumada”

Essa controvérsia foi a primeira ruptura na família pentecostal. Segundo a visão tradicional do movimento holiness e dos primeiros pentecostais, inspirados por João Wesley, existia uma experiência instantânea de “inteira santificação” ou “perfeição cristã”, separada da experiência da conversão. Era chamada a “segunda bênção”, sendo considerada uma preparação necessária para uma terceira experiência, o batismo com o Espírito Santo (a nova experiência pentecostal). Em 1910, William H. Durham, pastor da Missão da Avenida Norte, em Chicago, questionou essas idéias, insistindo no que ele denominou a “obra consumada no Calvário”, ou seja, o fato de que a obra de Cristo na cruz era suficiente tanto para a salvação quanto para a santificação. Os pentecostais da obra consumada passaram a entender a santificação como um processo gradual. Em 1915, essa já era a posição preferida de aproximadamente metade dos pentecostais americanos, e hoje da maioria deles.

3.2.2 A questão racial

Como foi visto, o Avivamento da Rua Azusa uniu negros e brancos, tornando-se, nos seus primeiros anos, um modelo de cooperação inter-racial. Em 1910, destacados líderes pentecostais brancos e negros se esforçavam para tornar essa visão inter-racial um elemento básico do pentecostalismo. Com o tempo, muitos líderes brancos acharam difícil manter esse impulso inicial. O racismo e as leis de segregação racial do sul dos Estados Unidos (leis Jim Crow) prevaleceram. Ficou difícil realizar convenções multi-raciais, pois havia leis proibindo reuniões desse tipo e acomodações em hotéis para ambas as raças. Por causa dos obstáculos culturais, sociais e institucionais, muitas igrejas negras começaram a se retirar de denominações multi-raciais já em 1908. Da mesma maneira, uma associação branca ligada à Igreja de Deus em Cristo formou as Assembléias de Deus como uma denominação predominantemente branca em 1914 (Hot Springs, Arkansas). Em 1924, a maior parte das igrejas brancas de outra denominação mista, as Assembléias Pentecostais do Mundo, se retiraram para criar uma denominação branca, que mais tarde veio a ter o nome de Igreja Pentecostal Unida (Missouri). Os pentecostais hispanos, muito numerosos, também se organizaram separadamente. Desde o final dos anos 60, as denominações pentecostais têm tentado sanar algumas dessas divisões.

3.2.3 O movimento da unicidade

Em 1913, numa concentração na Califórnia, o pastor canadense Robert Edward McAlister começou a insistir no fato de que o Novo Testamento mostra os apóstolos batizando somente “em nome de Jesus”.[18] Essa prática começou a ser adotada por muitos pentecostais através do país. No início parecia apenas uma nova fórmula para o batismo, mas com o tempo verificou-se que era uma rejeição da doutrina da Trindade com sua tríplice distinção de pessoas, constituindo uma reedição do monarquianismo modalista ou sabelianiamo dos primeiros séculos da história da igreja. Em 1916, as Assembléias de Deus condenaram formalmente as posições do movimento de unicidade ou “Jesus somente”. Seus adeptos tiveram de desligar-se e formaram as suas próprias denominações – as Assembléias Pentecostais do Mundo 1919) e mais tarde a Igreja Pentecostal Unida (1945). Hoje esse grupo representa uma fração muito pequena do pentecostalismo mundial.

3.2.4 Pacifismo

A maior parte dos primeiros pentecostais eram resolutos pacifistas, por duas razões: obediência a preceitos bíblicos como “Amai os vossos inimigos” e “Não matarás”, e a crença pré-milenista no fim do mundo. Se o final dos tempos estava próximo, os cristãos deviam concentrar todas as suas energias na evangelização do mundo, e não em guerras. Portanto, a maioria das igrejas pentecostais se posicionou contra o envolvimento dos Estados Unidos na I Guerra Mundial e alguns líderes chegaram a ser presos. Na época da II Guerra Mundial, eles já haviam assumido uma posição cultural mais semelhante aos evangélicos, aprovando a legitimidade de envolvimento americano na guerra. Por fim, na Guerra do Vietnã muitos já haviam se tornado antipacifistas.

3.2.5 Manipuladores de serpentes

Num domingo de 1910, George W. Hensley, um pregador do Tennessee, falou sobre o texto de Marcos 16.17-18. Ao concluir o sermão, ele tirou uma grande cascavel de dentro de uma caixa e segurou-a com as mãos por vários minutos. A seguir, ordenou que sua congregação fizesse o mesmo. Sua fama se espalhou pela região e ele foi ordenado na Igreja de Deus. Hensley teve uma vida cheia de altos e baixos, inclusive com quatro casamentos, mas continuou a manipular serpentes até o fim, sendo mordido várias vezes. Essa prática acabou proibida por lei e por isso esse líder e seus seguidores foram presos muitas vezes. No dia 24 de julho de 1955, Hensley foi picado mais uma vez. Como nas outras ocasiões, recusou-se a receber tratamento médico e na manhã seguinte estava morto, aos 75 anos de idade. Hoje cerca de 2.500 pentecostais americanos praticam o manuseio de serpentes em igrejas autônomas muito conservadoras.

3.2.6 Os latinos

Os latinos, principalmente mexicanos e chicanos (americanos de origem mexicana), estiveram presentes no Avivamento da Rua Azusa desde o início. Por razões não inteiramente claras, Seymour os expulsou da missão em 1909. Esse conflito deu origem ao movimento pentecostal latino, que se difundiu através dos Estados Unidos, México e Porto Rico. Em 1912, eles criaram as suas próprias igrejas autônomas e independentes na Califórnia, Texas e Havaí. Um dos líderes iniciais mais influentes foi o evangelista Francisco Olazábal, apelidado “El Azteca”. Até recentemente os latinos eram conhecidos como os “pentecostais silenciosos”, porque sua história raramente era contada. Esse segmento tem desfeito o estereótipo de que ser latino é o mesmo que ser católico romano. Em 1998, cerca de um milhão de latinos freqüentavam 10.000 igrejas e grupos de oração em 40 tradições pentecostais e carismáticas nos Estados Unidos e em Porto Rico, sem contar o número muito maior de pentecostais existentes em muitos países latino-americanos.

3.3 Mulheres

Outra característica do movimento pentecostal nos seus primórdios foi a grande participação e visibilidade dada às mulheres. Dois exemplos notáveis são Maria Beulah Woodworth-Etter e Aimee Semple McPherson, esta última a fundadora da Igreja do Evangelho Quadrangular.

3.3.1 Maria Woodworth-Etter (1844-1924)

Essa famosa pregadora teve uma vida difícil até os 35 anos. Cinco de seus seis filhos morreram e o seu primeiro marido foi surpreendido em adultério. Em aflição, ela uniu-se aos quacres e tornou-se uma pregadora avivalista. Nos seus cultos, as pessoas clamavam e choravam em alta voz; muitos participantes entravam em transe ou tinham visões que podiam durar várias horas. Em 1912, aos 68 anos, ela abraçou o movimento pentecostal mais amplo ao pregar por seis meses em Dallas. Tornou-se uma das evangelistas pentecostais mais conhecidas do início do século e o seu ministério possibilitou o surgimento posterior de outras mulheres pregadoras e ministradoras de curas.[19]

3.3.2 Aimee Semple McPherson (1890-1944)

Originalmente de sobrenome Kennedy, Aimee nasceu em Ontário, no Canadá. Seu pai era metodista e a mãe, do Exército de Salvação. Quando adolescente, conheceu o pentecostalismo através das pregações de Robert Semple, com quem se casou aos 17 anos. Ele morreu dois anos depois, em Hong Kong, quando o casal iniciava uma carreira missionária. Voltando para casa, ela contraiu matrimônio com o homem de negócios Harold McPherson e eles se tornaram evangelistas itinerantes (depois que ela quase morreu de apendicite em 1913). Em 1917, Aimee passou a publicar a revista mensal The Bridal Call (“O chamado do noivo”) e começou a atrair a atenção da imprensa. Depois que o marido pediu divórcio, ela aceitou em 1918 um convite para pregar em Los Angeles. Dedicou as suas energias à recuperação do “cristianismo da Bíblia”, usando como tema Hebreus 13.8. Em 1919, iniciou uma série de conferências que a tornaram famosa. Dentro de um ano, os maiores auditórios dos Estados Unidos não comportavam as multidões que queriam ouvi-la. As orações pelos enfermos tornaram-se marcas de suas campanhas. Em rápida sucessão, ela foi à Austrália, a primeira de suas viagens ao exterior (1922), consagrou o Templo Ângelus (1923), fundou uma estação de rádio (1924) e sua escola bíblica mudou-se para uma sede própria (1925). “Sister”, como era chamada, também iniciou projetos na área social em diversas cidades.

Em maio de 1926 começaram os problemas. Aimee alegou que foi seqüestrada e que teria conseguido escapar, algo que nunca foi devidamente esclarecido. Ela enfrentou sérios problemas de saúde na maior parte da década de 1930. Um desastroso terceiro casamento durou menos de dois anos. Sua realização pública mais notável nos anos 30 foi um programa social no Templo Ângelus que distribuiu alimentos, roupas e outros donativos a muitas famílias carentes. Durante a Depressão, o refeitório ofereceu 80.000 refeições só nos dois primeiros meses. Sua contribuição mais importante e duradoura foi a criação da Igreja Internacional do Evangelho Quadrangular (1927), cujo nome aponta para Cristo como aquele que salva, cura, batiza como Espírito Santo e virá outra vez.[20] Donald Dayton argumenta que essas quatro ênfases em conjunto caracterizam e distinguem o movimento pentecostal como um todo.[21] É aquilo que se denomina o “evangelho pleno”.

4. O pentecostalismo no Brasil

A partir de Los Angeles, e especialmente de Chicago, o pentecostalismo rapidamente se irradiou para vários outros países. O movimento entrou cedo na América Latina, primeiro no Chile (1909) e logo em seguida no Brasil (1910). No início o crescimento nesses e em outros países foi lento, mas se intensificou a partir da década de 50. Desde os anos 70, o pentecostalismo também se expandiu na América Central, especialmente na Guatemala e El Salvador, onde representa respectivamente 30% e 20% da população. No Chile, cerca de  80% dos protestantes são pentecostais. Nesse país, o pentecostalismo marcou a nacionalização do protestantismo. São muitas as razões da expansão pentecostal na América Latina: as vicissitudes históricas da obra evangelística e pastoral católica, o limitado trabalho das denominações protestantes, o misticismo das culturas ibero-americanas, os graves problemas econômicos, políticos e sociais.

A primeira manifestação de entusiasmo religioso no protestantismo brasileiro é atribuída por Émile Léonard ao movimento liderado por Miguel Vieira Ferreira (1837-1895).[22] Esse engenheiro, presbítero e pregador leigo da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, membro de uma família aristocrática de São Luís do Maranhão, acreditava que Deus ainda se revelava diretamente às pessoas, como nos tempos bíblicos. Dotado de um temperamento místico, certa vez teve uma espécie de transe, ficando totalmente imóvel por longo período de tempo. Disciplinado pela igreja por insistir nas suas idéias, o Dr. Miguel retirou-se com um grupo de crentes, a maior parte parentes seus, e criou a Igreja Evangélica Brasileira (1879), que subsiste até hoje. Todavia, esse grupo é diferente em vários aspectos do movimento pentecostal surgido algumas décadas mais tarde.[23]

O sociólogo Paul Freston fala sobre “três ondas” ou fases de implantação do pentecostalismo no Brasil.[24] A primeira onda, ainda nos primeiros anos do movimento pentecostal norte-americano, trouxe para o país duas igrejas: a Congregação Cristã no Brasil (1910) e as Assembléias de Deus (1911). Essas igrejas dominaram amplamente o campo pentecostal durante quarenta anos. A Assembléia de Deus foi a que mais se expandiu, tanto numérica quanto geograficamente. A Congregação Cristã, após um período em que ficou limitada à comunidade italiana, sentiu a necessidade de assegurar sua sobrevivência por meio do trabalho entre os brasileiros. É interessante o fato de que, quando chegaram os primeiros pentecostais, todas as denominações históricas já haviam se implantado no país: anglicanos, luteranos, congregacionais, presbiterianos, metodistas, batistas e episcopais. Todavia, o seu crescimento havia sido modesto. Em 1931, fazendo um levantamento sobre o protestantismo nacional, Erasmo Braga ironicamente dedicou apenas umas poucas linhas à Assembléia de Deus e nem se referiu à Congregação Cristã no Brasil.[25]

A segunda onda pentecostal ocorreu na década de 50 e início dos anos 60, quando houve uma fragmentação do campo pentecostal e surgiram, entre muitos outros, três grandes grupos ainda ligados ao pentecostalismo clássico: Igreja do Evangelho Quadrangular (1951), Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil para Cristo (1955) e Igreja Pentecostal Deus é Amor (1962), todas voltadas de modo especial para a cura divina. Essa segunda onda coincidiu com o aumento do processo de urbanização do país e o crescimento acelerado das grandes cidades. Freston argumenta que o estopim dessa nova fase foi a chegada da Igreja Quadrangular com os seus métodos arrojados, forjados no berço dos modernos meios de comunicação de massa, a Califórnia.[26] Esse período revela uma tendência digna de nota – a crescente nacionalização do pentecostalismo brasileiro. Enquanto que a Igreja Quadrangular ainda veio dos Estados Unidos, as outras duas surgidas na mesma época tiveram raízes integralmente brasileiras.

A terceira onda histórica do pentecostalismo brasileiro começou no final dos anos 70 e ganhou força na década de 80, com o surgimento das igrejas denominadas “neopentecostais”, com sua forte ênfase na teologia da prosperidade. Sua representante máxima é a Igreja Universal do Reino de Deus (1977), mas existem outros grupos significativos como a Igreja Internacional da Graça de Deus (1980), Igreja Renascer em Cristo, Comunidade Sara Nossa Terra, Igreja Paz e Vida, Comunidades Evangélicas e muitas outras. Assim como a ênfase da primeira onda foi o batismo com o Espírito Santo e o conseqüente falar em línguas, a da segunda onda foi a cura e a da terceira, o exorcismo e mensagem da prosperidade. Uma importante precursora dos grupos neopentecostais foi a Igreja de Nova Vida, fundada pelo canadense “bispo” Robert McAllister, que rompeu com a Assembléia de Deus em 1960. Essa igreja foi pioneira de um pentecostalismo de classe média, menos legalista, e investiu muito na mídia. Foi também a primeira igreja pentecostal a adotar o episcopado no Brasil. Sua maior contribuição foi o treinamento de futuros líderes como Edir Macedo e seu cunhado Romildo R. Soares.[27]

Outros grupos pentecostais e neopentecostais brasileiros resultaram da chamada “renovação carismática”. Esse movimento surgiu nos Estados Unidos no início dos anos 60, com a ocorrência de fenômenos pentecostais nas igrejas protestantes históricas e também na Igreja Católica Romana.[28] No Brasil, a “renovação” produziu divisões em quase todas as denominações mais antigas, com o surgimento de grupos como a Igreja Batista Nacional, a Igreja Metodista Wesleyana e a Igreja Presbiteriana Renovada. Essa adoção de crenças e práticas carismáticas, principalmente na área do culto, continua afetando em maior ou menor grau as denominações tradicionais até hoje. A esta altura, é oportuno considerar alguns representantes significativos do pentecostalismo brasileiro.

4.1 Congregação Cristã no Brasil

As duas igrejas pioneiras do pentecostalismo brasileiro tiveram sua origem em Chicago, através do ministério de William H. Durham (1873-1912), que fundou em 1907 a Missão da Avenida Norte (North Avenue Mission). Um dos seus discípulos foi o italiano Luigi Francescon (1866-1964), que havia emigrado para os Estados Unidos em 1890. Em Chicago, ele se converteu ao evangelho e foi um dos fundadores da Igreja Presbiteriana Italiana daquela cidade. Em 1903, foi batizado por imersão e passou a reunir-se com um grupo holiness, até descobrir a mensagem pentecostal na igreja do pastor Durham. Foi batizado com o Espírito Santo em 1907 e recebeu uma profecia de Durham para que levasse a mensagem pentecostal aos seus patrícios. Em 1909 ele e Giacomo Lombardi foram a Buenos Aires, onde abriram uma igreja. No início do ano seguinte, Francescon visitou São Paulo e a pequena Santo Antônio da Platina, no Paraná. Numa segunda visita, em junho de 1910, ele criou a Congregação Cristã, que resultou em parte de um cisma na Igreja Presbiteriana do Brás, constituída em boa parte de italianos. O fundador nunca chegou a residir no Brasil, mas fez onze visitas entre 1910 e 1948, totalizando uma estada de quase dez anos.

Em 1930, a Congregação Cristã tinha sete membros para cada três da Assembléia de Deus; todavia, em fins dos anos 40 foi ultrapassada pela sua rival. No ano 2000, de acordo com o censo oficial, ela estava com pouco menos de um terço dos membros da Assembléia de Deus, ou seja, cerca de 2,8 milhões de adeptos. A Congregação Cristã tem a maior parte dos seus templos em São Paulo e em cidades do interior de outros estados. Entre as suas peculiaridades está a rejeição dos modernos métodos de divulgação, restringindo a pregação da sua mensagem aos locais de culto. Possui fortes elementos sectários, não se considerando uma igreja protestante e não mantendo ligações com outros grupos.

Seu ethos caracteriza-se por um rígido dualismo igreja-mundo e espírito-matéria, e, no entanto, não pratica o legalismo de outros pentecostais. Destaca-se pelo “iluminismo” religioso, apelando para revelações diretas de Deus no que diz respeito às mensagens nos cultos e a decisões tomadas pela liderança. Suas reuniões, bastante ordeiras em comparação com as de outros grupos pentecostais, dão forte ênfase aos “testemunhos”. A igreja pratica uma forte cultura de ajuda mútua, denominada “obra de piedade”. No plano administrativo, rejeita o excesso de organização, tem uma burocracia mínima, e não conta com pastores, e sim com anciãos não-remunerados. A liderança é baseada na antiguidade mais do que no carisma ou competência. Seus líderes são praticamente anônimos e essa ausência de personalismo resulta numa tendência mínima para cismas e ambições políticas. A homogeneidade interna do grupo é fortalecida pelo constante contato entre os crentes de diferentes cidades e por uma convenção anual realizada no Brás, na Semana Santa. Com as suas características inusitadas, a Congregação Cristã no Brasil exemplifica o dinamismo e a diversidade do movimento pentecostal.[29]

4.2 Assembléia de Deus

Essa igreja, que veio a ser tornar a maior denominação pentecostal e evangélica do Brasil, bem como uma das maiores do mundo, também teve as suas raízes em Chicago, a cidade norte-americana onde o pentecostalismo mais cresceu nos primeiros tempos e na qual 75% da população era constituída de imigrantes ou filhos de imigrantes. Entre estes estavam dois suecos de origem batista: Gunnar Vingren (1879-1933) e Daniel Berg (1885-1963). Vingren, filho de um jardineiro, foi para os Estados Unidos em 1903 e estudou no seminário da igreja batista sueca em Chicago. Em seguida, pastoreou algumas igrejas e abraçou o pentecostalismo, época em que conheceu o colega Daniel Berg. Este era filho de um líder batista e também havia emigrado para os Estados Unidos. Retornando ao seu país em 1908, descobriu que um amigo de infância, Levi Pethrus, havia se tornado pentecostal. Ele seria posteriormente o líder do pentecostalismo sueco. Influenciado por Pethrus, Berg abraçou a fé pentecostal quanto retornava para os Estados Unidos em 1909. Conhecendo Vingren, os dois se uniram pelo ideal missionário. Enquanto oravam com um patrício, este profetizou que deveriam ir para um lugar chamado Pará.[30]

Os dois obreiros fixaram-se em 1911 em Belém do Pará, onde passaram a freqüentar a igreja batista, cujo pastor, Erik Nilsson ou Eurico Nelson, também era sueco. Alguns meses depois, a mensagem pentecostal de Vingren e Berg produziu uma divisão na igreja, surgindo assim o primeiro grupo da nova denominação, que inicialmente foi chamado “Missão de Fé Apostólica”, um dos nomes dos primeiros grupos pentecostais dos Estados Unidos. Só alguns anos mais tarde foi adotado o nome Assembléia de Deus. A partir de 1914, outros missionários suecos começaram a chegar para auxiliar os pioneiros. O auge da presença sueca na Assembléia de Deus ocorreu nos anos 30 e praticamente cessou após 1950. O ano de 1930 foi muito significativo, porque marcou a nacionalização do trabalho. Na primeira Convenção Geral, realizada em Natal, com a presença de 11 suecos e 23 líderes brasileiros, a igreja adquiriu autonomia em relação à missão sueca, que lhe transferiu todas as propriedades. Houve também a virtual transferência da sede nacional de Belém para o Rio de Janeiro. Mais tarde surgiu uma ligação mais estreita com os Estados Unidos, cujos missionários têm exercido influência na área da educação teológica.

Analisando essa trajetória, Paul Freston observa que “os missionários suecos, que tanta influência tiveram nos primeiros quarenta anos da Assembléia de Deus no Brasil, vieram de um país religiosa, social e culturalmente homogêneo, no qual eram marginalizados”.[31] Como membros de uma minoria desprivilegiada, eles tinham poucos recursos financeiros e rejeitavam a ênfase no aprendizado formal, fatores esses que influenciaram a igreja brasileira. Assim, as Assembléias de Deus, bem como outros grupos pentecostais pioneiros, não estabeleceram as relações de dependência que caracterizaram as missões históricas. Nos primeiros quinze anos, a expansão da igreja limitou-se ao norte e nordeste. Todavia, na época da nacionalização, em 1930, já estava presente em vinte estados, contando com cerca de 40.000 congregados.

Quanto às peculiaridades da igreja, Freston aponta para o seu sistema de governo “oligárquico e caudilhesco”, que seria fruto da influência cultural nordestina.[32] Exemplo disso são os diferentes “ministérios”, nem sempre amistosos entre si, e a grande autoridade exercida pelo “pastor presidente”, verdadeiro bispo de uma cidade ou região, sendo essa posição geralmente atingida após uma lenta ascensão. Nas últimas décadas têm ocorrido crises resultantes desse modelo de liderança, do fenômeno da ascensão social dos adeptos e da concorrência com novos grupos pentecostais. A maior crise enfrentada pela igreja foi o cisma que deu origem à Convenção Nacional das Assembléias de Deus de Madureira. Esse ministério havia sido fundado pelo gaúcho Paulo Macalão, filho de um general, que entrou em conflito com os missionários suecos, críticos do seu rigor legalista. Consagrado pastor por Levi Pethrus em 1930, ele se tornou independente e passou a abrir trabalhos em vários estados. As tensões crescentes após sua morte (1982) levaram à exclusão de Madureira pela Convenção Geral (1989), que assim deixou de representar cerca de um terço da Assembléia de Deus no Brasil.

Ao contrário da Congregação Cristã, que não tem literatura própria, a Assembléia de Deus publica desde 1930 um periódico oficial, Mensageiro da Paz, e possui uma editora de grande expressão. A igreja enfrenta forte tensão entre manter a tradição conservadora e populista e aceitar novos valores como a ênfase no aprimoramento intelectual. Freston destaca que a formação cultural ultrapassada faz com que os líderes “percam terreno para grupos pentecostais mais novos, com menos tradições arraigadas para dificultar sua adaptação à moderna cultura urbana brasileira”.[33] Ainda assim, a Assembléia de Deus é um fenômeno impressionante, com os seus mais de 8 milhões de afiliados (quase metade de todos os pentecostais brasileiros), muito mais numerosos que os da congênere americana, com 2 milhões.[34] Com o passar do tempo, essa igreja vem se tornando mais parecida com as outras denominações evangélicas, revelando maior sobriedade no seu culto e uma preocupação crescente com a preparação intelectual e teológica dos seus obreiros.

4.3 Outras igrejas

Alguns outros grupos expressivos no cenário religioso brasileiro, ainda dentro do pentecostalismo clássico, são os seguintes:[35]

 

4.3.1 Igreja do Evangelho Quadrangular

Fundada nos Estados Unidos em 1927 por Aimee Semple McPherson, a Igreja Quadrangular chegou ao Brasil por meio do missionário Harold Williams, um ex-ator de filmes de faroeste, que implantou a primeira igreja em São João da Boa Vista (SP), em novembro de 1951. Em 1953 teve início a Cruzada Nacional de Evangelização, sendo Raymond Boatright o principal evangelista. Desde então essa igreja tem crescido constantemente, sendo uma de suas peculiaridades a forte ênfase dada ao ministério feminino. De todas as grandes igrejas pentecostais brasileiras (1,3 milhão de membros segundo o Censo 2000), esta é a única que pode ser considerada uma filial da congênere norte-americana. Todas as demais surgiram no próprio Brasil, ainda que algumas delas tenham sido iniciadas por fundadores estrangeiros.

4.3.2 Igreja O Brasil Para Cristo

Um dos primeiros pastores da Igreja Quadrangular brasileira foi Manoel de Mello, um ex-evangelista da Assembléia de Deus. Em 1955, ele separou-se da Cruzada Nacional de Evangelização e organizou a campanha “O Brasil Para Cristo”, da qual surgiu a igreja com o mesmo nome. Manoel de Mello surpreendeu o mundo evangélico em 1969 quando filiou sua igreja ao Conselho Mundial de Igrejas (CMI), filiação essa que se estendeu até 1986. Em 1979 a Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil Para Cristo inaugurou o seu enorme templo no bairro da Água Branca, em São Paulo, sendo orador oficial Philip Potter, o secretário-geral do CMI. Curiosamente, entre os presentes estava D. Paulo Evaristo Arns, o cardeal arcebispo de São Paulo.

4.3.3 Igreja Deus é Amor

Essa igreja foi fundada por David Miranda, nascido em 1936, filho de um agricultor do Paraná. Vindo para São Paulo, ele se converteu numa pequena igreja pentecostal e em 1962 iniciou sua própria igreja na Vila Maria. Pouco depois a igreja transferiu-se para o centro da cidade, sendo em 1979 adquirida a “sede mundial” da Baixada do Glicério, onde há poucos anos foi construído um dos maiores templos evangélicos do Brasil. A Igreja Deus é Amor até hoje não utiliza a televisão, mas é proprietária de uma rede de emissoras de rádio e transmite os seus programas para toda a América Latina. Destaca-se como a mais rígida e legalista de todas as igrejas pentecostais. Sua direção continua firmemente nas mãos do missionário fundador.

5. O fenômeno neopentecostal

O acontecimento mais marcante das últimas décadas no âmbito religioso do Brasil foi o surgimento do neopentecostalismo, notadamente sua expressão mais espetacular, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Sendo um fenômeno recente, essa manifestação religiosa ainda está sendo objeto de uma identificação mais precisa, inclusive no aspecto terminológico. Alguns autores falam em “pentecostalismo autônomo”.[36] Já o professor Antonio G. Mendonça utiliza a designação “pentecostalismo de cura divina”, o que pode ser problemático, pois faria o neopentecostalismo retrocedor aos anos 50, com o início da segunda onda pentecostal.[37] Seja qual for a designação, o fato é que essa manifestação representa, ao lado de alguma continuidade, profundas rupturas com o pentecostalismo clássico e muito mais ainda com o protestantismo histórico.

Esse fenômeno ainda em evolução tem como proposta religiosa básica o trinômio cura-exorcismo-prosperidade. Diante das realidades de sofrimento e alienação que caracterizam a sociedade moderna, principalmente nos grandes centros urbanos, essas igrejas oferecem espaços de solidariedade e acolhimento, gerando um forte senso de dignidade entre os seus participantes. Por outro lado, elas revelam uma clara tendência para práticas sincréticas e mágicas, tais como a utilização crescente de objetos e rituais como mediação do sagrado, a adoção do vocabulário e práticas da religiosidade popular brasileira e o uso da Bíblia apenas como um instrumento para a solução de problemas. Mendonça faz a seguinte avaliação contundente:
… essas igrejas não constituem comunidades de crentes comprometidos com a koinonia cristã. Estão sempre cheias, mas de clientes que buscam solução mágica para os problemas do cotidiano e que  estão sempre em trânsito, na maioria das vezes mantendo sua identidade religiosa tradicional. Não são, portanto, igrejas, mas clientela de bens de religião obtidos magicamente.[38]

José Bittencourt Filho tem uma perspectiva mais otimista, que ainda está para ser demonstrada:

O crescimento numérico do [Pentecostalismo Autônomo] e sua extraordinária capacidade de mobilização demonstra que a proposta oferecida está em sintonia com as demandas espirituais da população brasileira de todas as camadas sociais. No futuro, o carisma deverá rotinizar-se, e os remanescentes serão talvez poucas denominações mais próximas da tradição evangélica do que na atualidade.[39]

Esse novo pentecostalismo se adapta muito bem à moderna cultura urbana influenciada pela televisão e pela ética do capitalismo de consumo. Duas expressões emblemáticas são a Igreja Universal do Reino e a Igreja Renascer em Cristo.

5.1 Igreja Universal do Reino de Deus

A IURD foi fundada pelo pastor Edir Macedo, nascido em 1944, que possui uma biografia interessante e reveladora. Filho de um comerciante fluminense, ele trabalhou por dezesseis anos na Loteria do Estado do Rio de Janeiro, período no qual subiu de simples contínuo até um cargo administrativo. De origem católica, ingressou quando adolescente na Igreja de Nova Vida, deixando-a para fundar sua própria, inicialmente denominada Igreja da Bênção. Em 1977, ele deixou o emprego público para dedicar-se integralmente ao trabalho religioso. Nesse mesmo ano surgiu o nome IURD e o primeiro programa de rádio. Em 1980, houve um conflito de liderança entre Macedo e seu cunhado Romildo Soares, o que levou este último a criar a Igreja Internacional da Graça de Deus. Há anos Soares se destaca como o líder religioso que ocupa maior espaço na televisão brasileira.

Macedo residiu nos Estados Unidos de 1986 a 1989. Quando voltou para o Brasil, transferiu a sede da igreja para São Paulo e adquiriu a Rede Record de Televisão. À medida que construía um império econômico e de comunicações, a igreja também se preocupou em buscar sustentação política, elegendo em 1990 três deputados federais, e outros mais em anos posteriores. Em 1992, Macedo esteve preso por doze dias sob a acusação de estelionato, charlatanismo e curandeirismo. Um acontecimento que deu grande publicidade à igreja foi o episódio do “chute na santa”, quando, em um programa de televisão transmitido em 12 de outubro de 1995, o bispo Sérgio von Helde referiu-se de modo desairoso a Maria, dando alguns chutes numa imagem da mesma. Apesar dos percalços, a IURD tem crescido enormemente, sendo, graças à sua presença maciça na mídia e aos seus grandes templos nas principais ruas e avenidas de muitas cidades, a mais visível das igrejas evangélicas brasileiras. Segundo o último censo geral, tinha no ano 2000 pouco mais de 2 milhões de adeptos no Brasil, além de muitos templos no exterior.
Freston entende que “a IURD é uma atualização das possibilidades teológicas, litúrgicas, éticas e estéticas do pentecostalismo”.[40] A ênfase principal da sua mensagem não é o batismo no Espírito Santo e a glossolalia, mas a teologia da prosperidade (na saúde, nas finanças e no amor), como fica explícito em seu slogan “Pare de sofrer; venha para a IURD”. Em conexão com isso, também pratica o exorcismo de modo bastante explícito. Essa igreja rompe com a pobreza simbólica do protestantismo brasileiro, fazendo amplo uso da visão, tato e gestos, bem ao sabor da religiosidade tradicional do país. Embora seja o líder inconteste, Edir Macedo tem um estilo pouco personalista. A organização da igreja facilita o controle centralizado e a constante inovação metodológica. As atividades são governadas por um marketing agressivo e estratégias ousadas. Ao falar sobre a ética dessa igreja, Freston faz uma comparação interessante: “A ética da IURD pode ser contrastada com a da [Assembléia de Deus]. Esta representa a ética tradicional do capitalismo primitivo, uma luta longa e árdua para alcançar a modesta respeitabilidade pequeno-burquesa. A Universal, por outro lado, encarna uma versão religiosa da ética yuppie, o enriquecimento súbito através de jogadas audaciosas”.[41]

5.2 Igreja Apostólica Renascer em Cristo

A Igreja Renascer foi fundada em 1985 pelo “apóstolo” Estevam Hernandes Filho e sua esposa, a “bispa” Sônia Haddad Moraes Hernandes. Como outros líderes pentecostais, Estevam teve uma origem humilde como filho de um jardineiro de cemitério e começou a trabalhar aos 7 anos, fazendo carretos em feiras livres. Mais tarde, desiludido com o catolicismo, filiou-se a uma igreja pentecostal, onde conheceu a futura esposa. Sete anos depois, casaram-se e decidiram fundar sua própria igreja. À semelhança dos pastores da IURD, o casal Hernandes tem grande habilidade em conseguir contribuições dos fiéis. Todavia, ao contrário de Edir Macedo, ostentam com orgulho sinais de riqueza, como roupas caras, jóias e automóveis importados. O casal é proprietário da Rede Gospel de Comunicação e por algum tempo procurou assumir o controle da Rede Manchete de Televisão. A Igreja Renascer exemplifica um pentecostalismo de classe média e tem forte apelo junto à juventude e a celebridades do esporte e da mídia.

Em pouco mais de vinte anos, essa igreja abriu 1500 templos no Brasil e 20 em outros seis países, sendo a segunda maior denominação neopentecostal do Brasil. Há vários anos promove a Marcha para Jesus, evento que reuniu 3 milhões de pessoas em São Paulo no corrente ano. À semelhança da IURD, a igreja tem investido na área política e elegeu dois deputados federais no último pleito. Uma séria dificuldade de imagem decorre do fato de que os fundadores não fazem uma clara distinção entre os bens da igreja, construídos com doações dos membros, e o seu patrimônio pessoal. O casal responde a um processo em que são acusados de estelionato contra fiéis e lavagem de dinheiro arrecadado nos cultos. Por não terem comparecido a uma audiência do processo, sua prisão preventiva foi decretada pela justiça no final de novembro de 2006.[42]

6. Avaliação e perspectivas

Qualquer abordagem construtiva do pentecostalismo precisa incluir, ao lado de uma crítica dos seus problemas e distorções, uma consideração honesta de suas contribuições positivas e das advertências que faz ao protestantismo histórico. A Igreja Católica Romana tem procurado deixar de lado as acusações de praxe (movimentos sectários, fanatismo, obscurantismo) para estudar com seriedade esse movimento que lhe tem subtraído um grande número de fiéis, fazendo uma necessária autocrítica e buscando aprender as lições da história.[43] As igrejas protestantes, notadamente aquelas de tradição reformada, precisam empreender um esforço semelhante.

As vicissitudes do pentecostalismo são bem conhecidas e muitas delas já foram apontadas neste artigo. Evidentemente elas não devem ser generalizadas, aplicando-se ora a uns, ora a outros grupos. Esses problemas podem ser classificados em algumas áreas: (1) Escritura: ênfase excessiva na experiência, profecias ou revelações, relativizando a importância da Bíblia; interpretação bíblica literalista ou alegórica, conforme a necessidade, sem atentar para as boas regras da hermenêutica; a Bíblia é considerada acima de tudo um livro de promessas de Deus para os crentes; (2) vida espiritual: entendimento da relação com Deus como uma transação, perdendo-se o senso da salvação como dádiva imerecida da graça; visão dualista da realidade (bem-mal, Deus-diabo) e tendência de atribuir todo mal a influências diabólicas, minimizando a responsabilidade humana; ênfase excessiva na experiência e nas emoções, que pode levar ao subjetivismo; interesse por modismos e novidades; (3) liderança: estilo centralizador e personalista; culto à personalidade do líder, considerado intocável (o “ungido do Senhor”); pequena participação dos fiéis na esfera decisória e na administração dos recursos financeiros[44]; (4) ética: atitude triunfalista e ênfase no poder podem minimizar um viver ético; maior ênfase aos dons do que ao fruto do Espírito; tendência para a alienação quanto aos problemas da sociedade; atuação questionável na esfera política; (5) culto: perigo de colocar os adoradores no centro das atenções ao invés de Deus (antropocentrismo); liturgia condicionada por interesses pragmáticos (atrair e empolgar os participantes) e preferências culturais, e não pelo ensino da Escritura.[45] Essas deficiências e outras são muito sérias e as igrejas históricas devem não só orientar os seus próprios fiéis, mas ajudar os pentecostais e carismáticos a serem mais bíblicos nessas áreas.

Por outro lado, os pentecostais, carismáticos e renovados oferecem algumas lições importantes para as igrejas tradicionais ou históricas. O surgimento e crescente aceitação desses movimentos sugere insatisfação com uma religiosidade formal e rotineira, bem como o desejo de uma experiência mais profunda com Deus, de um culto mais alegre e fervoroso, de uma vida cristã mais plena. O protestantismo histórico, que começou como um movimento revolucionário e renovador, com o tempo se tornou rígido, tradicionalista e rotineiro. Sua rejeição da piedade medieval fez com que se perdessem elementos valiosos da experiência cristã, como o senso de mistério, o deslumbramento diante do Ser Divino, o rico simbolismo espiritual que apela à mente e aos sentidos. O pentecostalismo veio resgatar esses elementos que haviam sido esquecidos pela tradição protestante. Outras contribuições importantes são a insistência na atualidade da mensagem bíblica (tudo o que a Escritura diz é também para hoje), a exuberância do louvor, a ênfase na evangelização (grande parte do crescimento do cristianismo no século 20 resultou do trabalho das igrejas pentecostais), a preocupação com os pobres e marginalizados (libertação do pecado e dos vícios; dignidade humana).[46]

Os especialistas têm feito uma série de conjecturas sobre o futuro do movimento pentecostal.[47] Embora haja diferentes perspectivas, em uma coisa todos concordam: o pentecostalismo veio para ficar. As igrejas herdeiras da Reforma, como a presbiteriana, podem adotar diferentes atitudes: tentar ignorar o movimento pentecostal, como se não fosse relevante; hostilizá-lo, apontando somente para as distorções teológicas e éticas; ou, preferivelmente, interagir com ele, aprendendo lições úteis com essa tradição e ao mesmo tempo procurando influenciá-la, para que se torne mais íntegra e bíblica.[48] Entre as áreas a serem reconsideradas, podem ser apontadas as seguintes: (a) na esfera do culto: liturgia mais alegre, edificante e participativa; hinódia contemporânea com sólido conteúdo bíblico e doutrinário; (b) na esfera das missões: maior ênfase na evangelização, envolvendo todos os membros; reexame das estratégias missionárias (por exemplo, em certas igrejas pentecostais o obreiro deve primeiro plantar uma igreja para então ser consagrado pastor, ao passo que na IPB o grande número de formandos dos seminários não está se traduzindo em crescimento para a igreja); (c) no âmbito social: transformação das igrejas em espaços acolhedores para pessoas de todas as classes e condições; atuação deliberada e sistemática junto às camadas mais pobres da população, levando-lhes o evangelho integral. Também existem algumas contribuições que as igrejas tradicionais podem oferecer aos pentecostais e renovados: seriedade no estudo e interpretação das Escrituras; valorização da boa teologia e das doutrinas bíblicas; compromisso com a ética cristã, especialmente quanto à liderança e finanças; ênfase à santidade tanto quanto ao poder; equilíbrio entre experiência e Escritura, emoções e intelecto, fervor e reverência; valorização da herança cristã.


[1] Ver http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2000/ populacao/religiao_Censo2000.pdf .

[2] Ver LOPES, Augustus Nicodemus. Paulo e os “espirituais” de Corinto. Fides Reformata 3/1 (jan.-jun. 1998), p. 88-109.

[3] Por exemplo, Calvino escreveu uma obra intitulada “Contra a seita fantástica e furiosa dos libertinos que são chamados espirituais” (1545). Lutero costumava referir-se a eles com o termo Schwärmer, que lembra um enxame de abelhas esvoaçando confusamente em torno da colméia.

[4] Ver MATOS, Alderi S. Edward Irving: precursor do movimento carismático na igreja reformada. Fides Reformata 1/2 (jul.-dez. 1996), p. 5-14.

[5] CAMPOS, Leonildo Silveira. As origens norte-americanas do pentecostalismo brasileiro: observações sobre uma relação ainda pouca avaliada. Revista USP, n° 67 (set.-nov. 2005), p. 100-115.

[6] Ver DAYTON, Donald W. Theological roots of Pentecostalism. Peabody, Massachusetts: Hendrickson, 1991 (1987).

[7] Ibid., p. 50.

[8] Ibid., p. 54. Dayton afirma: “O metodismo iria encontrar o seu verdadeiro destino na América” (p. 63).

[9] Ibid., p. 68s.

[10] Ver OLSEN, Ted. American Pentecost: the story behind the Azusa Street Revival, the most phenomenal event of twentieth-century Christianity. Christian History, Vol. XVII, No. 2 (1998), p. 10-13.

[11] DAYTON, Theological roots of Pentecostalism, p. 27. O simbolismo das primeiras e últimas chuvas é tirado de textos como Atos 2.17-18; Joel 2.23, 28-29; Tiago 5.7-8.

[12] Ibid., p. 28.

[13] Para maiores informações sobre Parham e Seymour, ver CAMPOS, As origens norte-americanas do pentecostalismo brasileiro, p. 108-112.

[14] O autor teve a oportunidade de visitar esse local em outubro de 2003. A casa da Rua Bonnie Brae está muito bem preservada, sendo administrada por uma instituição denominada Pentecostal Heritage Inc.

[15] OLSEN, American Pentecost, p. 16s.

[16] Dados colhidos pessoalmente pelo autor em outubro de 2003.

[17] Vários autores. Pentecostal quilt: key events and people who’ve made the movement as unique as it is diverse. Christian History, Vol. XVII, No. 2 (1998), p. 18-25.

[18] Ver MATOS, Alderi S. O batismo “em nome de Jesus” no livro de Atos: uma reflexão bíblico-teológica. Fides Reformata 5/2 (jul.-dez. 2000), p. 99-114.

[19] Maria Beulah Woodworth-Etter. Christian History, Vol. XVII, No. 2 (1998), p. 35s.

[20] BLUMHOFFER, Edith L. Sister: Aimee Semple McPherson was the first Pentecostal to become a national sensation. Christian History, Vol. XVII, No. 2 (1998), p. 31-34.

[21] DAYTON, Theological roots of Pentecostalism, p. 21s.

[22] Ver LÉONARD, Émile-G. O iluminismo num protestantismo de constituição recente. São Bernardo do Campo: Ciências da Religião, 1988; MATOS, Alderi S. Os pioneiros presbiterianos do Brasil: missionários, pastores e leigos do século 19 (1859-1900). São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 461-63.

[23] Para um estudo recente, ver RIVERA, Paulo Barrera. A reinvenção de uma tradição no protestantismo brasileiro: a Igreja Evangélica Brasileira entre a Bíblia e a Palavra de Deus. Revista USP n° 67 (set.-nov. 2005), p. 78-99.

[24] FRESTON, Paul. Breve história do pentecostalismo brasileiro. Em: ANTONIAZZI, Alberto et al. Nem anjos nem demônios: interpretações sociológicas do pentecostalismo. 2ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994, p. 70.

[25] BRAGA, Erasmo; GRUBB, Kenneth. The Republic of Brazil: a survey of the religious situation. Londres: World Dominion Press, 1932, p. 69s. Todavia, as estatísticas fornecidas indicam que os pentecostais já representavam quase 10% da comunidade evangélica (p. 71, 141).

[26] FRESTON, Breve história do pentecostalismo brasileiro, p. 72.

[27] Ibid., p. 132s.

[28] Ver CANÊLHAS, Jorge Alberto. Renovação carismática católica: opção metodológica pentecostal no catolicismo brasileiro. Dissertação de Mestrado, CPAJ, 2000; CÉSAR, Elben M. Lenz. História da evangelização do Brasil: dos jesuítas aos neopentecostais. Viçosa, MG: Ultimato, 2000, p. 143-147.

[29] Para maiores informações, ver FRESTON, Breve história do pentecostalismo brasileiro, p. 100-109.

[30] Ibid., p. 80s.

[31] Ibid., p. 77.

[32] Ibid., p. 86.

[33] Ibid., p. 95.

[34] Para outras informações sobre a Congregação Cristã e a Assembléia de Deus, ver CÉSAR, História da evangelização do Brasil, p. 113-122. Um estudo mais antigo e mais técnico é READ, William R. Fermento religioso nas massas do Brasil. Campinas: Livraria Cristã Unida, 1967.

[35] Para maiores informações sobre esses grupos, ver FRESTON, Breve história do pentecostalismo brasileiro, p. 110-129; CÉSAR, História da evangelização do Brasil, p.129-142.

[36] BITTENCOURT FILHO, José. Remédio amargo. Em: ANTONIAZZI et al., Nem anjos nem demônios, p. 24.

[37] MENDONÇA, Antonio Gouvêa. Protestantes, pentecostais & ecumênicos. São Bernardo do Campo, SP: UMESP, 1997, p. 165; ver também a seção “O início do neopentecostalismo no Brasil”, p. 157-59.

[38] Ibid., p. 161; ver ainda as características mencionadas na p. 165.

[39] BITTENCOURT FILHO, Remédio amargo, p. 33.

[40] FRESTON, Breve história do pentecostalismo brasileiro, p. 139. Um estudo clássico sobre a IURD é: CAMPOS, Leonildo Silveira. Teatro, templo e mercado: organização e marketing de um empreendimento neopentecostal. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Simpósio e UMESP, 1997.

[41] Ibid., p. 150s.

[42] Ver O Estado de São Paulo, 1º de dezembro de 2006, p. A24.

[43] Ver ANTONIAZZI, Alberto. A Igreja Católica face à expansão do pentecostalismo; e SANCHIS, Pierre. O repto pentecostal à cultura católico-brasileira. Em: ANTONIAZZI et al. Nem anjos nem demônios, p. 17-23, 34-63. Ver ainda: RUANO, Edgar Moros. A Igreja Católica e o desafio pentecostal. Em: GUTIÉRREZ, Benjamin F.; CAMPOS, Leonildo Silveira (orgs.). Na força do Espírito: os pentecostais na América Latina: um desafio às igrejas históricas. São Paulo: Pendão Real, 1996.

[44] Essa é uma das áreas que têm dado reputação mais negativa aos evangélicos junto à sociedade. Nas recentes eleições presidenciais, um dos mesários da seção eleitoral do autor usava uma camiseta com os seguintes dizeres: “Pequenas igrejas, grandes negócios”.

[45] Paulo Romeiro, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, aborda essas e outras distorções em várias obras: Supercrentes (teologia da prosperidade), Evangélicos em Crise (decadência doutrinária nas igrejas), Decepcionados com a Graça (R.R. Soares e sua igreja).

[46] Uma obra que destaca a contribuição do movimento pentecostal na luta pela dignidade dos pobres é: CÉSAR, Waldo; SHAULL, Richard. Pentecostalismo e futuro das igrejas cristãs: promessas e desafios. Petrópolis, RJ: Vozes; São Leopoldo, RS: Sinodal, 1999.

[47] Ver CAMPOS, Leonildo Silveira. Protestantismo histórico e pentecostalismo no Brasil: aproximações e conflitos; e FRESTON, Paul. Entre o pentecostalismo e o declínio de denominacionalismo: o futuro das igrejas históricas no Brasil. Em: GUTIÉRREZ e CAMPOS, Na força do Espírito, p. 107-109, 267-72.

[48] É essa a abordagem seguida pelo Rev. Antônio Carlos Costa, do Rio de Janeiro, que, através de programas de televisão e das conferencias anuais que promove em sua igreja, tem despertado grande interesse de muitos pentecostais em relação à fé reformada.

DOUTRINAS DAS ASSEMBLÉIAS DE DEUS

 

Sumário

 1. SOBRE DEUS

2. SOBRE A BÍBLIA

3. SOBRE O NASCIMENTO DE JESUS

4. SOBRE O PECADO

5. SOBRE A SALVAÇÃO

6. SOBRE O BATISMO EM ÁGUAS

7. SOBRE O ESPÍRITO SANTO

8. SOBRE A SEGUNDA VINDA DE CRISTO

9. SOBRE O JUÍZO VINDORO

10. SOBRE A VIDA ETERNA

BIBLIOGRAFIA

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A grande maioria dos cristãos está vivendo ao sabor de experiências místicas supersticiosas. Pior: nem sequer pro­curam investigar se o que estão expe­rimentando consubstancia a verdade plena das Escrituras Sagradas. Destarte, tornam-se divulgadores de opiniões que nem mesmo sabem se são verda­deiras ou falsas. Tudo isso está ocor­rendo — este é o meu entendimento — pelo fato de termos nos acostumado a escutar, a gravar e a repetir sem ler ou com­parar o conteúdo doutrinário de todas as in­formações bíblicas que nos são passadas. Por essa e por outras razões muito mais fortes é que precisamos tomar a iniciativa de reler, reinvestigar, reanalisar e reinterpretar, ponto a ponto, todas as dou­trinas bíblicas esposadas pelas Assembleias de Deus no Brasil, a fim de termos uma visão mais comprome­tida com a coerência e com a autenticidade das Sagra­das Escrituras.

Embora saiba, por observação, que ousadia, cora­gem, espírito pioneiro, iniciativas novas e especialmen­te muita prudência são virtudes especiais do evangéli­co tradicional das Assembleias de Deus, tenho a abso luta certeza de que necessitamos redescobrir a Palavra de Deus que, infelizmente, vem sendo substituída em alguns de nossos púlpitos.

Acredito piamente que o problema fundamental para a proliferação da subcultura pentecostal, na forma de um astigmatismo teológico, está na falta de prioridade. A Palavra de Deus está ficando em segundo plano em nossas reuniões.

Estranhamente, alguns líderes evangélicos fecham-se numa alienação intolerável, quase medieval. Fazem ouvidos moucos, evitam confrontos, preferem não sa-ber, não ouvir, não ler e não aprender a fazer o que é certo. Afora isso, existe ainda uma constelação enorme de evangélicos que estão muito aquém dos limites permitidos em termos de conhecimento bíblico. Daí crescerem, em algumas culturas evangélicas e num rit-mo alucinante, tantos absurdos, distorções e discre-pâncias que comprometem comportamentos e defor-mam padrões cristãos.

Tendo em vista fortalecer as nossas posições dou-trinárias, uma vez que estamos sendo ameaçados pela presença de novos pensamentos, modismos e ideias comprovadamente heréticas, desejamos neste manual analisar o nosso credo, objetivando munir o nosso povo da verdade para poder enfrentar as heresias hodiernas.

Assentado isso, termino aqui fazendo minhas as palavras do profeta Oséias:

O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento .

Pr. Paulo Roberto Freire da Costa

Presidente do Conselho de Doutrina da CGADB

 

1

SOBRE DEUS

 

Cremos em um só Deus, que é Santo, Criador de todas

as coisas, soberano, eterno, subsistente em três

Pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo

(Dt 6.4; Mt 28.19; Mc 12.29).

Em nenhuma parte da Bíblia Sagrada os escritores bíblicos se empenham para provar a existência de Deus. Eles partem do pressuposto básico de que Deus existe e ocupam-se em descrever tão-somente as ações de Deus e o seu caráter (Gn 1.1; Hb 11.3).

Mas a Bíblia dá testemunho de Deus em ação no mundo físico, na história e na vida particular dos indivíduos. Esses testemunhos despertam, aperfeiçoam e fortalecem a fé na Pessoa de Deus.

Embora a Bíblia fale de homens que dizem em seus corações que “não há Deus”, a presença divina no mundo é fato real e insofismável.

Os ateus praticantes que tentam banir a Deus de seus pensamentos fazem-no pelo fato de o terem retirado primeiramente de suas vidas. Mas é de um escritor alemão a desconcertante frase sobre o ateísmo: “Cada ateu abriga um crente no coração”.   ”

Existência de Deus

De acordo com alguns biblistas, a existência de Deus é uma verdade primária e fundamental. Uma verdade é primária ou fundamental quando se caracteriza pela universalidade, necessidade e auto-evidência. Ou seja: uma verdade que é aceita universalmente, que se impõe como necessária para que se possa explicar as demais realidades e que se mostre por si mesma, sem depender de uma prova preliminar, dada pelo homem, para ser aceita.

São concebidos como verdades primárias o tempo, o espaço, o número, causa e efeito, idéia do bem e do mal. As noções dessas verdades são intuitivas no homem e desenvolvem-se pela experiência. Assim é também Deus para o ser humano: uma verdade fundamental, primá¬ria, que é aceita e vivida na experiência da vida.

A idéia de que Deus existe é universal. Em qualquer cultura, povo ou época encontra-se esta crença. A existência de Deus é necessária para que o homem tenha resposta adequada para as questões fundamentais levantadas pelo pensamento humano. Ela é auto-evidente: mostra-se por si só [sic]. Independe de ser aprovada pelo homem para que seja aceita por verdade. É como uma flor que, exalando seu perfume, prova sua existência e presença aos circunstantes que têm a capacidade de sentir o cheiro. *

*Severa, Zacarias de Aguiar. Manual de Teologia Sistemática. Curitiba: AD Santos, s.d.

O livro Teologia sistemática: uma perspectiva pentecostal, de Stanley Horton, publicado pela CPAD, tem uma visão bem contemporânea dos temas dogmáticos Acerca de Deus disse Jó: “[…] faz grandes coisas que nós não compreendemos” (Jó 37.5,6, grifo nosso).

Não é porque não compreendemos uma coisa que ela deixa de existir. Mesmo que Deus não seja alcançado pela compreensão humana, Ele continua reinando soberano sobre tudo e sobre todas as coisas: “Vós sois as minhas testemunhas, diz o Senhor, e o meu servo, a quem escolhi; para que o saibas, e me creiais, e entendais que eu sou o mesmo, e que antes de mim deus nenhum se formou, e depois de mim nenhum haverá” (Is 43.10).

A natureza de Deus

Deus é apresentado na Bíblia como infinitamente perfeito (Dt 18.13; Mt 5.48). Logo, a sua obra é perfeita (Dt 32.4), e também os seus caminhos (SI 18.30). Todas as características de sua Pessoa e de sua natureza não são apenas expressões de alguma atitude que demonstra ou possui, mas constituem a própria substância de sua divindade.

Não se pode explicar a natureza de Deus, mas somente crer nEle. Podemos basear a nossa doutrina sobre Deus nas pressuposições já citadas e nas evidências demonstradas nas Escrituras. Alguns textos bíblicos atribuem à pessoa de Deus qualidades que os seres humanos não possuem, ao passo que outros textos o descrevem em termos de atributos morais compartilhados pelos seres humanos, ainda que de forma limitada. Por exemplo, Deus é santo por natureza, e o homem, por participação (Rm 1.4; 2 Co 7.1; 1 Ts 3.13).

O Antigo Testamento usa o termo “santo” em sentido absoluto apenas quando se refere à majestade incriada e inteiramente inacessível de Deus, sendo que tudo o mais, em comparação a Ele, é o absolutamente não-santo (Êx 15.11).

Em comparação a Deus, ninguém e nada é santo ou puro, e homem nenhum pode se atrever a chamar-se santo ao lado de Deus (Jó 4.17; 15.4; 25.4-6). Só Deus santifica, i. é, só Ele faz o homem participar de sua santidade; é de Deus que vem a santidade de Israel.

A esse princípio segue imediatamente o seu aspecto ético, que é realçado, sobretudo pelo contraste com a pecaminosidade do homem.

A natureza de Deus é identificada com mais freqüência por aqueles atributos que não possuem analogia com o ser humano. Deus existe por si mesmo, sem depender de outro ser. Ele é a fonte originária da vida, tanto ao criá-la quanto ao sustentá-la. Deus é espírito; Ele não está confinado à existência material e é imperceptível ao olho físico. Sua natureza é imutável, já mais se altera. Posto que o próprio Deus é o fundamento do tempo, Ele não pode ser limitado pelo tempo. Ele é eterno, sem começo nem fim. Deus é totalmente consistente dentro de si mesmo. O espaço não pode limitá-lo, pois Ele é onipresente. Deus também é onipotente, pois é poderoso para fazer tudo que esteja de acordo com a sua natureza e segundo os seus propósitos. Além disso, é onisciente; conhece efetivamente todas as coisas — passadas, presentes e futuras. Em todos esses atributos o cristão pode achar o consolo e a confirmação da fé, ao passo que o incrédulo é advertido e motivado a crer.

De acordo com Cari Braaten, Deus tanto é contínuo como tem um ser contínuo, tudo o mais é temporário.

É preciso ressaltar ainda que não existe contradição entre a natureza perfeita de Deus e o seu poder ilimitado. Porque Deus jamais fará coisa alguma incompatível com a sua perfeita santidade. Ele, que tudo pode (Jó 42.2), só faz o que lhe apraz (SI 115.3).

Porém, existem coisas que o Onipotente não pode fazer: Ele não pode mentir (Nm 23.19; Tt 1.2; Hb 6.18), não pode negar-se a si mesmo (2 Tm 2,13) e não pode fazer injustiça (Jó 8.3; 34.12). Ele é sempre santo em todas as suas obras (SI 145.17). Deus também não faz acepção de pessoas (2 Cr 19.7; Rm 2.11).

Os atributos de Deus

Atributo é aquilo que qualifica um ser. Ao conhecer os atributos de um objeto, buscamos a essência de sua natureza. Quando conhecemos a Deus, descobrimos os seus atributos e o reconhecemos como um ser infinito.

Encontramos nas Escrituras os atributos de Deus. Elas declaram o que Ele é e o que Ele faz. É verdade que, como criatura, desvendá-los ou relacioná-los no seu todo é tarefa difícil, se não de todo impossível para nós.

O apóstolo, escrevendo sobre a glória de Deus, declara: “Aquele que tem, ele só, a imortalidade e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver; ao qual seja honra e poder sempiterno” (1 Tm 6.16).

Encontramos nas Escrituras os atributos absolutos de Deus: vida, personalidade, imutabilidade, unidade, verdade, amor, santidade, bondade, misericórdia e justiça.

Os atributos naturais de Deus são: onipresença, onisciência e onipotência.

Onipresença. Deus relaciona-se com tudo e todos ao mesmo tempo. Está presente em toda a sua personalidade. Não há como fugir da presença de Deus. “Para onde me irei do teu Espírito ou para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, tu aí estás; se fizer no Seol a minha cama, eis que tu ali estás também; se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá” (SI 139.7-10).

Onisciência. Deus é onisciente porque conhece todas as coisas. Nada há que se esconda de sua onisciência. “E até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados” (Mt 10.30). Na onisciência de Deus, o futuro também está presente: “Lembrai-vos das coisas passadas desde a antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro Deus, não há outro semelhante a mim; que anuncio o fim desde o princípio e, desde a antiguida¬de, as coisas que ainda não sucederam” (Is 46.9,10). A onisciência de Deus garante-nos que todos os futuros julgamentos serão de acordo com a verdade.

Onipotência. O apóstolo João, na ilha de Patmos, assim descreve parte de sua visão apocalíptica: “Depois destas coisas, olhei, e eis que estava uma porta aberta no céu; e a primeira voz, que como de trombeta ouvira falar comigo, disse: Sobe aqui, e mostrar-te-ei as coisas que depois destas devem acontecer. E logo fui arrebatado em espírito, e eis que um trono estava posto no céu, e um assentado sobre o trono” (Ap 4.1,2).

Quando Deus apareceu a Abrão, em Gênesis 17.1, disse-lhe: “Eu sou o Deus Todo-poderoso […]”. Entendemos que o mundo físico ou material e o mundo espiritual dependem de seu poder e por ele são controlados. Ê do trono que emana toda ordem para o mun¬do visível e para o invisível. Deus não está sujeito a nenhuma força exterior ou contrária à sua vontade. É soberano em todo o Universo: “Ele é o que está assentado sobre o globo da terra, cujos moradores são para ele como gafanhotos; ele é o que estende os céus como cortina e os desenrola como tenda para neles habitar” (Is 40.22; cf. vv. 12-15).

A Trindade

Ainda que não se encontre nas Escrituras a palavra “Trindade”, é bíblico, no entanto, o fundamento dessa doutrina, presente nos ensinos proferidos por Jesus Cristo e seus apóstolos.

Encontramos no Antigo Testamento a doutrina da Trindade: a) na criação e formação do homem (Gn 1.1,26); b) na dispersão dos rebeldes de Babel (Gn 11.1-7); c) na chamada do profeta Isaías (Is 6.3) e em tan¬tas outras passagens.

Mas é no Novo Testamento que encontramos de forma mais explícita essa doutrina. No início do ministério de Jesus, por ocasião do seu batismo em águas, o Espírito Santo desce sobre Ele e o Pai lhe diz: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.17). Observa-se nesse episódio a Trindade em cena, ratificando assim a sua realidade no Novo Testamento. Vemos também, em João 14.16, que Jesus roga ao Pai para que envie aos discípulos o Espírito Santo.

Findando o seu ministério, Jesus ordena aos discípulos que preguem e ensinem o Evangelho a todas as nações, “batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28.19). Essa é mais uma clara referência à Trindade.

Nos ensinos de Paulo, há referências cabais sobre a Trindade. Aos irmãos da Igreja em Corinto ele diz: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com vós todos. Amém!” (2 Co 13.13).

Diante do exposto, é impossível que se negue a doutrina da Trindade nas Escrituras, visto que a encontramos não somente nos textos considerados por alguns como simples inferências, mas também, e principalmente, nos textos que são referências reais, e não somente verbais.

Concluindo, Paulo cita, em Efésios 1.3, a obra da Trindade na salvação dos homens, referindo-se ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo”.

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SOBRE A BÍBLIA

Cremos na inspiração divina e plenária da Bíblia,

bem como na sua infalibilidade e Inerrância,

como única regra infalível de fé normativa

para a vida e o caráter cristãos

(2 Tm 3.14-17).

Desde os primórdios da civilização o homem, para viver em grupo, necessitou de normas que regulassem os seus direitos e deveres. Surge assim, após laboriosas experiências, a Constituição, que, transgredida, priva o cidadão dos bens maiores: a vida, a liberdade etc. Semelhantemente, no mundo espiritual, Deus estabeleceu a Bíblia Sagrada como fonte de vida. A Palavra de Deus liberta da escravidão do pecado os que vivem na mentira. Horace Greeley assim define a importância da Bíblia: “É impossível escravizar mental ou socialmente um povo que lê a Bíblia”. Os princípios bíblicos são os fundamentos da liberdade humana: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.32). A Bíblia lida, crida e vivida liberta o homem da escravidão do pecado, pois quem comete pecado é escravo do pecado. Necessitamos da Bíblia, pois é alimento para a alma: “Achando-se as tuas palavras, logo as comi, e a tua palavra foi para mim o gozo e alegria do meu coração; porque pelo teu nome me chamo, ó Senhor, Deus dos Exércitos” (Jr 15.16).

A Escritura Sagrada é a segurança para caminharmos no mundo de trevas: “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e luz para o meu caminho” (SI 119.105). Muitos andam em trevas por não conhecerem a luz gloriosa de Deus.

A Bíblia é a maravilhosa biblioteca de Deus com seus sessenta e seis livros. É acima de tudo a verdade para o fatigado peregrino; é hábil, eficaz e vigoroso cajado. Para os sobrecarregados e oprimidos pelos fardos da vida, ela é suave descanso; para os que foram feridos pelos delitos e pecados, é um bálsamo consolador. Aos aflitos e desesperados, sussurra uma alegre mensagem de esperança. Para os desamparados e arrastados pelas tormentas da vida, é uma âncora segura; para a solidão, é uma mão repousante [sic] que acalma e tranqüiliza suas mentes. **

** Eleanor, L. Doan.

A autenticidade da Bíblia

A autenticidade da Bíblia baseia-se na sua infalibilidade e inerrância. Os atributos da divindade são por ela revelados. Ela é autêntica em tudo, pelo fato de o próprio Deus ser o seu Autor, e o Espírito Santo, o seu Inspirador. Nela são autênticas e inerrantes as revelações e os fatos narrados.

Nestes últimos dias, o racionalismo tem se oposto vorazmente contra a autenticidade, a infalibilidade e a autoridade da Bíblia. Mas o ateísmo jamais poderá ofuscar a autenticidade das Escrituras.

O problema do ateu em não querer aceitar a Bíblia como Palavra de Deus está na forma como ele se comporta ao ler as Escrituras, pelo fato de não querer observar o que ela realmente está dizendo. Uma das principais afirmações da autenticidade da Bíblia é sustentada por Jesus, quando diz aos judeus que as Escrituras dão testemunho dEle (Jo 5.39). Ora, se Jesus já existia antes da fundação do mundo e as Escrituras falam a respeito dEle, isso de fato prova a autenticidade da Bíblia Sagrada.

Outra passagem das Escrituras que revela a sua autenticidade é a menção de Jesus ao profeta Jonas, cujo livro foi escrito aproximadamente 790 anos antes de Cristo. Nessa passagem Jesus afirma que Jonas esteve no ventre do grande peixe por três dias e três noites e que o profeta pregou aos ninivitas. Diante disso, chega a ser grotesco tentar obscurecer ou mesmo contestar a inerrância das Escrituras, visto que o próprio Jesus Cristo confirmou a sua veracidade: “Santifica-os na verdade, a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17).

A inspiração da Bíblia

A alta crítica, oriunda do liberalismo teológico que varreu a Europa nos séculos XIX e XX, recrudesceu a batalha entre a fé e a ciência. Baruch Spinoza, um dos ícones do modernismo histórico, foi o mais voraz crítico da inspiração bíblica, ao asseverar que não foi Moisés o autor do Pentateuco. Por isso foi excomungado da comunidade judaica, morrendo em total isolamento.

Daí para a frente, as Escrituras tornaram-se o grande alvo dos ataques de filósofos e teólogos liberais como Harnack, Bultimann, Renan, Schweitzer, Reimarus, Dibelius, Bultman, Straus e tantos outros que tentaram ridicularizar a Bíblia como livro inspirado por Deus.

Em face dos mais densos ataques da Escola Alemã desferidos contra as Escrituras, o fundamentalismo, movimento antiliberal do século XIX, saiu em defesa da inspiração plenária das Escrituras.

Conquanto devamos ter cuidado para não pensar a inspiração como psicografia — que, aliás, é de origem maligna —, não podemos negar o fato inextirpável de que só o sopro criativo e inteligente de Deus (graphê theopneustos, 2 Tm 3.16), pôde preservar a estrutura, a lógica e a coerência que a Bíblia possui.

As Escrituras tanto falam da inspiração do escritor quanto da inspiração do escrito: um é o agente, o outro é o efeito. Por exemplo, o texto de 2 Timóteo 3.16 (“Toda a Escritura é divinamente inspirada”) faz referência ao escrito como inspirado. Já 2 Pedro 1.21 (“Homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo”) fala do escritor.

A inspiração plenária da Bíblia é fato incontestável porque assuntos vitais como expiação, salvação, ressurreição, recompensa e castigo futuros requerem a direção de um Espírito infalível a fim de se evitarem informações que levem ao erro.

Dentro do mesmo assunto, destacam-se ainda duas posições que os modernistas não conseguem negar, embora não concordem com elas: a) a inspiração plenária e verbal da Bíblia e b) a inspiração e inerrância das Escrituras.

Inspiração plenária e verbal. Inspiração plenária significa que toda a Bíblia é inspirada em todas as suas partes. Cristo nunca faz distinção entre os livros da Bíblia quanto à sua origem divina e autenticidade, mas aplica a expressão “Palavra de Deus” a todo o cânon do Antigo Testamento. O mesmo fizeram os apóstolos (2 Tm 3.16).

Inspiração verbal significa que, na preparação das Santas Escrituras, a superintendência do Espírito Santo se estende às próprias palavras empregadas. As Escrituras constantemente afirmam que as suas palavras foram dadas ou dirigidas pelo Espírito Santo (At 28.25; 1 Co 2.13; 2 Pe 1.21).

Inerrância da Bíblia. Inerrância não significa que os escritores eram infalíveis, mas que seus escritos foram preservados de erros. Inerrância significa que a verdade é transmitida em palavras que, entendidas no sentido em que foram empregadas, não expressava erro algum.

Verificação

O Antigo Testamento declara-se escrito sob inspiração especial de Deus. A expressão “Deus disse” — ou “disse Deus” —, como forte indicador da chancela divina nos escritos sagrados, é usada mais de 2.600 vezes na Bíblia.

A Lei, os Salmos, os Profetas, os Evangelhos, as Epístolas, o Apocalipse — enfim, todo o Antigo Testamento e todo o Novo Testamento —, recebem de Deus um cuidado especial na sua inspiração. O Novo Testamento cita as leis antigas e faz menção delas com harmonia. Por isso há uma diferença insondável entre a Bíblia e qualquer outro livro. Essa diferença deve-se à origem, à forma e à organização da Bíblia.

Contendo 66 livros escritos por uns quarenta autores, num período de mais ou menos 1.600 anos, abrangendo uma variedade de tópicos, a Bíblia demonstra uma unidade de tema e propósito que só se explica como tendo ela uma mente diretriz.

Quantos livros suportam sucessivas leituras? Quantos conseguem ser lidos todos os dias da vida? A Bíblia pode ser lida não só muitas vezes, mas todos os dias e em todas as horas da vida. A Bíblia tem o seu lugar reservado em todas as bibliotecas do mundo, em cada casa e no coração do homem. Ela pode ser lida centenas de vezes, sem que se possam sondar as suas profundezas e sem que se perca o interesse pela sua leitura.

A Bíblia está traduzida em milhares de idiomas e dialetos e é lida em todos os países do mundo. O tempo não a afeta. É um dos livros mais antigos do mundo e ao mesmo tempo o mais moderno.

As defesas intelectuais da Bíblia têm o seu lugar, mas, afinal de contas, o melhor argumento é o prático. A Bíblia tem produzido resultados práticos indiscutíveis: tem influenciado civilizações, transformado vidas e trazido luz, inspiração e conforto a milhões de pessoas. E, nesse e em muitos outros sentidos, a sua obra ainda continua.

 

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SOBRE O NASCIMENTO DE JESUS

Cremos, como dizem as Escrituras, na concepção

virginal de Jesus, como obra exclusiva

do Espírito Santo

(Is 7.14; At 1.9; Rm 8.34).

Em nosso credo, confessamos que Jesus foi concebido pelo Espírito Santo. Desde o iluminismo essa doutrina tornou-se uma das mais disputadas. Na teologia contemporânea, Emil Brunner nega a concepção virginal de Cristo em seu livro The Mediator. Ele o chama de “curiosidade biológica” e vê uma possível conexão com o docetismo porque essa doutrina fazia com que o Espírito Santo usurpasse a função do pai humano. Como poderia Jesus ser como nós em todos os sentidos se realmente não tinha um pai humano? Karl Barth, teólogo contemporâneo de linha ortodoxa, rejeita os argumentos de Brunner, chamando-os de “um mau negócio”. Wolfhart Pannenberg toma o partido de Brunner, perguntando se os argumentos de Barth a favor da concepção virginal não o colocam “na trilha da mariolatria romana”. Para Pannenberg, “a história da concepção virginal traz todas as marcas de uma lenda”. Ele conclui: “A teologia não pode manter a idéia da concepção virginal de Jesus como fato miraculoso a ser postulado na origem de sua vida terrena”.

De acordo com a teologia modernista, a verdade da concepção pelo Espírito Santo consiste em que Deus foi o autor da salvação realizada através de Cristo desde o início, e não apenas em sua ressurreição, nem na cruz, nem no batismo. Ou seja, desde o momento de sua concepção por Maria. Segundo a linha teológica liberal, a história da concepção virginal de Jesus é vista como um símbolo.

Como fica evidente, o interesse primário da teologia liberal é demolir e esvaziar o sobrenatural da concepção de Jesus. A concepção virginal é por eles chamada de “uma extravagante intervenção no curso da natureza”.

Nascimento sobrenatural

Quando o Manifesto do Círculo de Viena (1929), com sua ideologia puramente científica, começou a defender o conteúdo e o método das ciências da natureza como única ferramenta capaz de subministrar uma cosmovisão rigorosa, exata e científica, asseverando que não há mistérios, e sim problemas que podem ser claramente formulados, investigados e resolvidos, acabou por subtrair o sobrenatural, estreitando totalmente o espaço para a fé e para a teologia.

Mas a redução do conhecimento ao campo experimental, que, por sua vez, se baseia no imediatamente dado, elimina da fé a verdadeira natureza do conhece-mento. Contra isso manifestou-se L. Wittgenstein, no seu Tratado lógico de filosofia: “O que se pode em geral dizer, pode-se dizer claramente; e sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar”.

É absolutamente impossível falar da concepção virginal de Jesus com a exclusão do sobrenatural. Até porque a Bíblia é um livro que acentua o tempo todo as intervenções sobrenaturais de Deus na história humana. Visto pelo âmbito do sobrenatural, a concepção virginal de Jesus é um dos maiores milagres efetuados por Deus no Novo Testamento.

Lucas, por exemplo, fala do nascimento de João Batista como resultante do sobrenatural e desemboca a sua narrativa no nascimento inusitado de Jesus Cristo: “E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; pelo que também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus” (Lc 1.35).

A concepção virginal de Jesus, como ação sobrenatural pujante, avilta os círculos da ciência, mexe com os brios dos ateus, desafia a teologia liberal e confunde os agnósticos. Conquanto a Bíblia não se preocupe em descer a detalhes racionais formais, não se exclui de contar o nascimento de Jesus como fato decorrente da intervenção sobrenatural e direta de Deus. De fato, o milagre da concepção virginal de Jesus quebra todas as leis científicas, como também transcende as ciências sociais e humanas, pelo fato de mostrar-se como algo absolutamente inexplicável.

Embora nos últimos dois séculos os teólogos liberais e filósofos modernistas tenham desenvolvido um preconceito contra o sobrenatural, a concepção virginal de Jesus é fato indiscutível no Novo Testamento.

Paulo declara que Jesus é “nascido de mulher” (Gl 4.4). E continua: “[…] grande é o mistério da piedade: Aquele que se manifestou em carne […]” (1 Tm 3.16, grifo nosso). Diz ainda: “[…] sendo em forma de Deus […] tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” (Fp 2.6,7). Desse modo, Paulo ensina a encarnação. As expressões “nascido de mulher” e “gran¬de é o mistério da piedade”, por absoluta unanimidade dos biblistas, referem-se à concepção virginal de Jesus.

Prova da concepção virginal

A prova escriturística da concepção virginal de Jesus pode ser vista em alguns dos fatos narrados pelos evangelistas Mateus e Lucas. O primeiro mostra os escrúpulos de José, sua perplexidade e temores, bem como os seus planos de fuga diante da revelação intrigante do anjo. O segundo, Lucas, apresenta o comportamento de Maria, sua fala, suas perguntas, bem como a perplexidade em face da paradoxal revelação.

Do exposto, concluímos que ambos os evangelistas:

a) concordam que a concepção de Jesus foi milagrosa;

b) declaram também que foi predita pelos anjos e c) mostram que nesse nascimento cumpriram-se as profecias: “Portanto, o mesmo Senhor vos dará um sinal: eis que uma virgem conceberá, e dará à luz um filho, e será o seu nome Emanuel” (Is 7.14).

O dogma da Virgem Maria

O dogma católico da Virgem Maria declara que Maria, mesmo após o nascimento de Jesus, permaneceu virgem. É de Atanásioo distorcido dogma de Maria “Mãe de Deus”. Todavia, a Bíblia rebate essa idéia estapafúrdia com uma passagem clássica do Novo Testamento, que mostra claramente que Maria teve filhos e filhas:

Não é este o filho do carpinteiro? E não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos, Tiago, e José, e Simão, e Judas? E não estão entre nós todas as suas irmãs? Donde lhe veio, pois, tudo isso? (Mt 13.55,56).

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SOBRE O PECADO

 

Cremos que o pecado degenerou o homem e, como conseqüência,

destituiu-o da glória de Deus e que somente o arrependimento

e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo

o podem restaurar a Deus

(Rm 3.23; At 3.19).

Não há necessidade de se discutir a realidade do pecado. A história e o próprio conhecimento ín¬timo do homem oferecem abundantes testemunho do fato. Muitas teorias, porém, apareceram para negar, desculpar ou diminuir a natureza do pecado. As Escrituras, porém, asseveram: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jr 17.9); “Não há quem faça o bem, não há sequer um” (SI 14.3); “Todos nós andamos desgarrados como ovelhas” (Is 53.6); “Pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos [gentios], todos estão debaixo do pecado” (Rm 3.9); “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós” (1 Jo 1.8).

A pura verdade é que o pecado é uma realidade incontestável, pois está presente tanto na história como na consciência de cada ser humano. Os que tentam relativizar a existência do pecado, exorcizá-la, bani-la, ou até mesmo negá-la, devem atentar para a declaração do velho teólogo Berkroft: “O pecado é uma coisa que existe na realidade, seja latente nos vulcões adormecidos da natureza humana, seja patente na devastadora paixão ardente do homem”.

Obviamente, não é preciso dizer que este mundo não é perfeito e nem as coisas são como deveriam ser. As injustiças sociais, as economias iníquas e desequilibradas, as dominações imperialistas, que matam e destroem para impor o seu poder, estão aí para provar a degeneração do ser humano. Além disso, temos a imoralidade, os enganos, o orgulho desmedido, os furtos, a violência rural e urbana, os assassinatos, o abuso de menores, os estupros, as mentiras torpes e premeditadas, as ações maquiavélicas da mais profunda crueldade, levadas a efeito todos os dias na morte dos meninos de rua, nas guerras (derramamento inútil de sangue) com fins políticos e econômicos. Se isso ainda não for suficiente para provar a realidade do pecado aos que o negam, temos ainda o testemunho incontestável das religiões falsas e pagãs que, com seus sacrifícios cruentos, evidenciam o sentimento de culpa pelo pecado que impulsiona os homens a oferecer holocaustos.

E o que dizer da literatura mundial, repleta de ponderações ou citações que exprimem a realidade fatídica do pecado, como um fato triste e reconhecido em toda parte?

Sou uma criatura caída […] uma base iníqua existia em minha vontade antes de determinado ato (Coleridge).

Todos temos pecado, uns mais, outros menos (Séneca).

Não vejo em outros qualquer falta que eu mesmo não possa ter cometido (Goethe).

Não penses que tens feito qualquer progresso em direção à perfeição até que sintas que és o menor de todos os seres humanos (Thomas à Kempis).

Cada pessoa tem de condenar-se a si mesma, com jus¬tiça, por ser o maior pecador que conhece (Law).

Depois de todas essas provas exaustivas da pecaminosa condição de todo o gênero humano, não há o que desmentir ou negar: o pecado é uma realidade presente no mundo que “jaz no maligno”.

A origem do pecado

Uma vez que é difícil para a mente humana compreender o problema da origem do pecado, podemos dizer que, biblicamente, a primeira demonstração de pecado ocorreu quando Satanás, por causa da soberba, foi expulso da presença de Deus. “E tu dizias no teu coração; Eu subirei ao céu, e, acima das estrelas de Deus, exaltarei o meu trono, e, no monte da congregação, me assentarei, da banda dos lados do Norte” (Is 14.13). Essa passagem não se refere apenas ao rei de Tiro, mas também, no seu sensus plenior, a Satanás (Lc 10.18).

A soberba e a prepotência foram os elementos que provocaram o primeiro pecado. A essência do pecado é, portanto, arrogância, desejo de ser igual a Deus, a asserção da independência humana contra Deus, a constituição da razão, moralidade e cultura autônomas. “Ora, a serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo que o Senhor Deus tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?” (Gn 3.1).

O pecado, portanto, originou-se da livre escolha do homem em querer tornar-se como divindade. Pois, disse a serpente à mulher, “sereis como Deus, sabendo o bem e o mal. E, vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela” (Gn 3.5,6).

A conseqüência do pecado

Quando Adão, deixando de obedecer a Deus, caiu em transgressão, ele não só prejudicou a si mesmo como também a toda a raça humana, a quem ele representava (Rm 5.12). O primeiro efeito da desobediência de Adão foi à morte, na expressão redundante do hebraico: “morrendo morrerás” (Gn 2.17). Não se tratava tão-somente da morte física, porém, porque fisicamente Adão continuou vivendo, mas da morte espiritual, a separação de Deus (Ef 2.1-5). Por isso quando se dá ã conversão do pecador a Deus, ele (o pecador) recebe vida espiritual, que antes não existia nele em conseqüência da transgressão de Adão (Rm 5.12-14). Á pior conseqüência do pecado é a morte, tanto a espiritual e física quanto a eterna (Gn 3.19; Ap 20.14; 21.8). A morte, na linguagem bíblica, será o último inimigo a ser vencido (1 Co 15.26).

O pecado, portanto, trouxe várias e terríveis conseqüências aos homens, entre as quais a morte eterna, que significa uma existência de sofrimento resultante da separação eterna de Deus numa existência má e degradante.

A natureza do pecado

O caráter santo de Deus é norma absoluta, única e final para o julgamento dos valores morais. Não há, portanto, norma moral à parte de Deus. Logo, pode-se declarar, sem medo de estar errando, que o pecado é mau porque é diferente de Deus.

O pecado, visto por essa ótica, é descrito como transgressão de qualquer das leis de Deus, as quais foram dadas como norma para a criatura racional. O pecado c um ato e um estado da vontade pessoal contra Deus e sua vontade. Origina-se da totalidade da pessoa arraigada e relacionada com aquilo que transcende a mesma pessoa, expressa-se na complexidade da força e da fraqueza da pessoa e resulta na distorção de todas as relações pessoais.

Conforme o ensino das Escrituras Sagradas, todo homem está afastado de Deus pela corrupção do pecado. Essa natureza consiste na perda da justiça original que o homem tinha antes de pecar. Por conseguinte, todo homem está corrompido, e essa corrupção manifesta-se em uma aversão a todo o espiritual, uma inimizade com Deus e uma inclinação positiva para o mal. Portanto, o pecado, em sua natureza, envolve tanto a culpabilidade quanto a corrupção. O estado de pecado em que o homem caiu consiste no crime do primeiro pecado de Adão, na falta de retidão original, na corrupção de toda sua natureza, o que ordinariamente é chamado de pecado original.

Agora, para sustentarmos a doutrina bíblica do pecado original, temos que estabelecer três pontos, a saber:

1. Todos os homens, descendentes de Adão por geração ordinária, estão destituídos da justiça original e sujeitos à corrupção da natureza.

2. A corrupção original afeta todos os homens, não somente no corpo, mas também as faculdades da alma.

3. Sua natureza é tal que antes da regeneração os homens estão completamente indispostos e espiritualmente incapazes e contrários a tudo que é bom (Ef 2.1).

Encerramos citando Karl Barth, teólogo contemporâneo, que define o pecado como uma oposição ao modus vivendi cristocêntrico:

Pecado é tudo aquilo que, visto em Cristo, se caracteriza essencialmente como oposto de sua conduta.

5

SOBRE A SALVAÇÃO

 

Cremos na salvação presente, imediata, completa e perfeita

e na justificação do homem recebidas gratuitamente

de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo

(At 10.43; Rm 3.24-26; 10.13; Hb 5.9; 7.25).

A doutrina da salvação é uma das mais ricas em toda a Bíblia Sagrada. Ela é o grande dom de Deus aos homens: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8,9). A salvação não é uma conquista humana, e sim um dom de Deus. Nenhum ser humano deve imaginar que os seus méritos possam conquistar a salvação. Primeiramente, porque “todos pecaram”; segundo, porque só através de Jesus Cristo o homem pode ser salvo. É a salvação, como manifestação concreta da graça de Deus, que nos traz a regeneração, a justificação, a santificação, a libertação, a cura e tantas outras bênçãos. Na Epístola aos Romanos, encontramos a grandiosa catedral teológica levantada à salvação. Ali o Espírito Santo, o grande escultor divino, inspira o apóstolo

Paulo a esculpir uma das suas obras-primas acerca do plano presciente de Deus para salvar o homem de seus pecados.

Etimologicamente, a palavra salvação significa “ser tirado de um perigo”, “livrar”, “curar”, “dar escape”. A Bíblia fala da salvação como a libertação do tremendo perigo de uma vida sem Deus.

A salvação tem sua origem em Deus, que estabeleceu o seu plano antes da fundação do mundo (Ef 1.4). Quando o homem (Adão), no jardim do Éden, desobedeceu a Deus, o seu pecado trouxe graves conseqüências aos seus descendentes (Rm 5.12,17-19). Porém Deus não foi apanhado de surpresa. Ele já tinha, no princípio, estabelecido o meio eficaz para salvar o homem. No livro de Gênesis, aparece a promessa de um Redentor: a “semente da mulher” (Gn 3.15; comp. com Gl 4.4 e Is 7.14). Na “plenitude dos tempos”, cumprindo-se o que fora prometido, nasce o Salvador em Belém de Judá, e, conforme orientação recebida do anjo Gabriel, enviado da parte de Deus, deram-lhe o nome de Jesus, cuja missão se acha destacada no significado do seu nome (Mt 1.21; Lc 2.11).

Nos dias de seu ministério, quando procurado por Nicodemos (Jo 3.1,2, 16), Jesus revela a razão de sua vinda ao mundo, dentro do que já havia sido estabelecido (Ef 1.4; Ap 13.8). Pela resposta de Jesus a Nicodemos — “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu filho unigênito, para que todo aquele que nele crê […] tenha a vida eterna” —, entendemos que só Ele, Jesus Cristo, pode salvar (At 4.12). No plano de Deus para salvar o homem, estava incluída a morte de Cristo na cruz (Is 53.4-6; Jo 10.17,18; Hb 10.7-14). Paulo acentua a morte de Cristo, destacando que é o único meio pelo qual o homem pode ser resgatado da maldição da Lei (Gl 3.13,14).

 

Os três aspectos da salvação

1 Justificação. Um dos assuntos mais gloriosos da Bíblia é a justificação. Trata-se de um termo forense e significa “declarar alguém justo”, no sentido de absolvição. A justificação descreve a nova condição do homem pecador diante de Deus. O homem, antes culpado e condenado à morte eterna, recebe o perdão dos pecados e simultaneamente é declarado justo por Deus (Rm 8.33). Aos olhos de Deus, o nosso pecado não existe mais (SI 103.12; Mq 7.18,19; Rm 3.23-26). Na justificação, recebemos algo que ultrapassa o perdão, por¬que com o perdão recebemos a quitação dos nossos pecados; com a justificação, porém, Deus nos torna san¬tos, como se nunca houvéssemos pecado (Rm 5.1).

2. Regeneração. A salvação não advém de uma soma de ritos a serem praticados. Ela ocorre instantaneamente na vida de quem sinceramente crê no Senhor Jesus Cristo, e o recebe como Salvador e Senhor. Entretanto, há uma seqüência lógica a ser observada. Jesus disse: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.44). Ele também declarou: “Quando ele [o Espírito Santo] vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça, e do juízo: do pecado, porque não crêem em mim; da justiça, porque vou para meu Pai, e não me vereis mais; e do juízo, porque já o príncipe deste mundo está julgado” (Jo 16.8-11). O instrumento usado pelo Espírito Santo para realizar essa obra é a Palavra de Deus: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Rm 10.17). Vemos, portanto, que na salvação dos pecados há participação efetiva do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Todavia não está restringida a liberdade de escolha do homem: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Esse é o convite feito por Jesus. Cabem ao pecador duas opções: aceitar ou rejeitar (Jo 12.47,48).

As Escrituras falam de muitos apelos feitos ao homem para que ele retorne a Deus (Pv 1.23; Mt 18.3; Jo 7.37). A conversão é a resposta do pecador convicto à chamada de Deus feita pelo Espírito Santo. Há, no arrependimento dos pecados, dois pontos a serem considerados: o lado negativo, que é o sentimento de culpa pela transgressão das leis de Deus e que leva o homem ao arrependimento, e o positivo, a fé.

O arrependimento (methanóia, no grego), que significa “dar meia-volta”, “mudança de mente”, trata-se de uma mudança de atitude em relação ao pecado, que é abandonado e recusado. O pecador arrependido reconhece a sua culpa diante de Deus, a qual é acompanhada de um sentimento de tristeza pelo pecado cometido (SI 51.1-3,12; 2 Co 7.10).

O lado positivo do arrependimento está no fato de o pecador não somente virar as costas para algo, mas também voltar-se para Deus. É uma atitude de fé, que permite ao ser humano arrependido entrar numa relação positiva com Deus. Isso enfatiza a importância da fé, que é fundamental no relacionamento com Cristo (Hb 11.6).

Concluímos que a regeneração é descrita como o abandono das coisas opostas à vontade de Deus e a entrega total em obediência a Ele. Assim sendo, é um fato que se dá simultâneo à salvação.

3. Santificação. Uma coisa é tornar-se cristão. Outra é viver a vida cristã. Tudo que recebemos na salvação, na justificação e na regeneração se manifesta na santificação. Isso significa vida cristã na prática (1 Ts 4.3; 2 Co 7.1; Hb 12.14). A santificação apresenta três aspectos:

a) Santificação posicional — Nesse sentido, ela é imediata. “Na qual vontade [Deus] que temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo feita uma vez” (Hb 10.10).

Esse fato se dá na conversão do pecador: É imediato, total, e coloca o homem na posição de filho de Deus (1 Pe 1.3,4), ou seja, posicionalmente santo (Rm 1.7; Hb 3.1).

b) Santificação progressiva — “Quem é santo seja santificado ainda” (Ap 22.11). Essa santificação acontece no decorrer da vida cristã. Enquanto a santificação posicional é imediata, a progressiva é dinâmica e paulatina. Quanto mais o crente se consagra para Deus, mais santificado se torna (1 Co 7.1). A santificação progressiva aperfeiçoa-se no temor de Deus. Ela é aperfeiçoada com oração, estudo da Palavra de Deus, jejum, e através de uma vida dedicada à obra de Deus (Rm 6.12,13, 22).

c) Santificação completa (absoluta) — Acontecerá por ocasião da redenção do corpo, na ressurreição (Rm 8.22,23) ou no arrebatamento, quando formos transformados.

O novo nascimento

Quando Nicodemos, cujo nome significa “conquistador do povo”, foi ter com Jesus à noite, deixou transparecer no seu argumento o próprio significado do seu nome. Ele tentou impressionar Jesus às custas de elogio: “Rabi, bem sabemos que és mestre vindo de Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele” (Jo 3.2). Toda essa menção elogiosa não impressionou Jesus, que em contrapartida lhe respondeu sobre a necessidade do “novo nascimento”, o que nada tinha a ver com os elogios de Nicodemos.

Nicodemos deixa transparecer em suas palavras que não entendia nada a respeito do novo nascimento, apesar de ser ele mestre em Israel. Foi então que Jesus passou a ensiná-lo sobre o significado e como acontece o novo nascimento: “Aquele que não nascer da água e do Espírito…” (Jo 3.5).

Há quem confunda novo nascimento com batismo em água. Só que esse argumento não tem consistência por falta de embasamento bíblico. Ninguém é batizado em água para nascer de novo, porque só se batiza quem já é nascido de novo.

A palavra “água”, citada no texto, refere-se à Palavra de Deus, como o confirmam as próprias Escrituras. Paulo, em Efésios 5.26, apresenta a Palavra como água que santifica a Igreja (“[…] para a santificar pela lavagem da água, pela palavra de Deus”). Jesus também declara, em João 15.3: “Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado”. Vemos então que a Palavra de Deus é um dos elementos fundamentais para que se possa nascer de novo.

Jesus acrescenta ainda à água a expressão “Espírito”. Isso quer dizer que o novo nascimento não resulta apenas da ação da Palavra, mas também da do Espírito Santo, concordando com o que está escrito em João 16.8: “Quando ele [o Espírito Santo] vier, convencerá o mundo do pecado […]”. Assim, entendemos que, aplicando o Espírito Santo a Palavra de Deus à consciência e ao coração do pecador e recebendo este com sinceridade a verdade de Deus, acontece de imediato e de forma sobrenatural o que chamamos de novo nascimento: “Ele nos gerou de novo pela palavra da verdade […] em vós enxertada, a qual pode salvar a vossa alma” (Tg 1.18,21).

É do homem também uma parcela de responsabilidade no novo nascimento. Quando Tiago escreve que devemos receber “com mansidão a palavra em vós enxertada” e o escritor aos hebreus que “a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram”, concluímos que o homem tem a responsabilidade de aceitar a Palavra.

Com a operação da água — a Palavra de Deus — e do Espírito Santo, qualquer criatura humana pode nascer de novo. Aliás, isso continua acontecendo, quan¬do os mensageiros de Cristo anunciam o Evangelho, levando a Palavra, sob a unção do Espírito Santo, aos que ainda não foram alcançados para a salvação.

O novo nascimento contrasta com o nascimento natural. Jesus foi enfático ao responder a Nicodemos (Jo 3.6) que o novo nascimento nada tem a ver com a dou¬trina da reencarnação. Isso também está claro em João 1.13, que nos mostra a grande diferença entre nascer da vontade da carne, da vontade do varão, e nascer da vontade de Deus. Por ser o novo nascimento uma obra exclusiva do Espírito Santo e do poder da Palavra de Deus, não basta nascer num lar evangélico para alcançá-lo, porque “filho de crente não é crente”.

Deus tem uma família na terra (Ef 2.20; 3.14,15) composta por aqueles que nasceram de novo conforme a recomendação de Jesus a Nicodemos: “Necessário vos é nascer de novo…”

6

SOBRE O BATISMO EM ÁGUAS

Cremos no batismo bíblico efetuado por imersão do

Corpo inteiro uma só vez em águas, em nome do

Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme

determinou o Senhor Jesus Cristo

(Mt 28.19; Rm 6.1-6; Cl 2.12).

O batismo em águas (do grego baptzõ, “mergulhar”, “submergir”) é uma das duas ordenanças que Cristo deixou à Igreja (Mt 28.19). Através do batismo, o novo convertido, que já faz parte do Corpo de Cristo pelo novo nascimento, dá o seu testemunho público do que lhe aconteceu. Trata-se, portanto, de uma confissão pública de fé em Cristo, por intermédio de atos e palavras, onde o batizando mostra ter aceitado plenamente as verdades da Bíblia Sagrada.

No ato do batismo em águas, o convertido mostra ter morrido para o mundo e renascido para Cristo, para viver agora em “novidade de vida” (Rm 6.4).

As águas do batismo não visam limpar os nossos pecados. O Novo Testamento mostra claramente ser o sangue de Jesus, e não as águas do batismo, o que nos purifica e perdoa. Mediante o sangue de Jesus somos justificados, nossa consciência é purificada e somos redimidos (Rm 5.9; Hb 9.14; 1 Pe 1.18,19).

Embora a igreja católica e algumas denominações evangélicas pratiquem o batismo por aspersão ou efusão, a história e a etimologia do verbo grego baptzõ mostram ser a imersão a forma bíblica.

Pedro, ao falar sobre o batismo para “perdão dos pecados” (At 2.38), usou a mesma expressão grega utilizada por João Batista, quando este afirmou: “E eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento” (Mt 3.11). O batismo de João Batista não produzia o arrependimento, mas apontava para ele. Assim também a expressão petrina. “Para perdão dos pecados” significa “por causa do perdão dos pecados” ou “como testemunho de que os vossos pecados foram perdoados”. Nesse caso, o batismo tornou-se não somente um testemunho, mas um compromisso de viver uma nova vida no poder do Cristo ressuscitado.

O batismo em águas é só para os convertidos

De acordo com a Bíblia o batismo em águas é somente para os que já se converteram a Cristo. Jesus ordenou a seus discípulos: “Portanto, ide, ensinai [fazei discípulos em] todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”.

Observe que a ordem do texto é fazer primeiro discípulos e depois batizar. Em Marcos 16.16, o crer vem antes do batismo. Quando Filipe pregava e em nome de Deus realizava milagres, as pessoas criam e então eram batizadas (At 8.12). Essas pessoas foram batizadas sempre depois de terem crido.

Em alguns casos, pessoas receberam o batismo com Espírito Santo antes de serem batizadas em águas, mas está bem claro que o batismo em águas é somente para aqueles que confessam Cristo como Salvador.

Considerando todos esses exemplos, chegamos a conclusão de que não devemos, em hipótese alguma, batizar crianças, pois elas, não tendo ainda chegado à idade da razão, não têm nenhuma capacidade de confessar a Cristo como Salvador.

A Bíblia é contra o rebatismo

O batismo em águas deve ser ministrado uma só vez. É nesse sentido que Paulo escreve aos Efésios: “[…] uma só fé; um só batismo” (Ef 4.5).

O batismo

O modo. A palavra “batizar”, usada na fórmula de Mateus 28.19,20, significa literalmente, como já foi explicado, “mergulhar” ou “imergir, submergir”. Alguns, mesmo pertencendo a igrejas que batizam por aspersão, admitem que a imersão é o modo primitivo de batizar.

A fórmula. “[…] batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28.19). Há quem confunda a declaração de Pedro em Atos 2.38 com a fórmula citada em Mateus 28.19. As palavras proferidas por Pedro não representam uma fórmula batismal, e sim uma declaração de que as pessoas que reconheci¬am Jesus como Senhor e Cristo recebiam batismo.

A Didaquê, um documento escrito aproximadamente no ano 100 d.C, fala do batismo cristão celebrado em nome do Senhor Jesus Cristo. Mas o mesmo documento, ao descrever o rito detalhadamente, usa a fórmula trinitária. Por ser essa a determinação de Jesus, os que nele crêem e o recebem como Senhor jamais deveriam mudar a fórmula por Ele estabelecida.

Quem deve se batizado. Todos os que sinceramente se arrependem de seus pecados e recebem a Cristo como Salvador e Senhor são elegíveis para o batismo (At 2.4). O batismo em águas é uma confissão pública de fé em Cristo, por intermédio de atos e palavras, na qual o batizando mostra ter aceitado plenamente as verdades concernentes à encarnação, à morte e à ressurreição de Cristo.

No ato do batismo, o convertido mostra ter morrido para o mundo e renascido para Cristo, vivendo agora em novidade de vida. Concluindo, o batismo em águas, em si, não tem nenhum poder de salvar uma pessoa. Mesmo porque não se batiza alguém para ele ser salvo, e sim porque já é salvo.

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SOBRE O ESPÍRITO SANTO

Cremos no Espírito Santo como a terceira Pessoa

da Trindade, genuíno Deus, eterno, onipotente,

onipresente e onisciente

(Jo 16.13,14).

Sobre a doutrina acerca do Espírito Santo, urge prevenirmos os mal-entendidos. Isso porque o tipo de relacionamento que a maioria dos cristãos vem tendo com o Espírito Santo, a terceira Pessoa da Trindade, é absolutamente estranho e ao mesmo tempo paradoxal, quando analisado à luz da nossa declaração de fé, que diz: “Cremos […] em um só Deus eternamente subsistente em três Pessoas: O Pai, o Filho e o Espírito Santo”.

Esse relacionamento resulta, ao que tudo indica, da má compreensão das metáforas que a Bíblia usa para caracterizar algumas das manifestações do Espírito Santo, aliada ao uso exaustivo, sistemático, repetitivo e exagerado de simbologia em algumas culturas pentecostais. Isso fica provado quando ouvimos e analisamos as orações feitas ao Espírito Santo, quando lhe atribuímos apenas poder energético. Já parou para observar como nós oramos: “Ó Deus, manda a força do Espírito, o poder do Espírito, a unção do Espírito e nos enche de sua virtude…”?

De fato o Espírito Santo é força, poder, mas é sobretudo a terceira Pessoa da Trindade, a) Ele pode entristecesse (Ef 4.30); b) Ele é capaz de sentir ciúmes (Tg 4.5); c) Ele é capaz de sentir conosco as agonias da nossa existência (Rm 8.26,27); d) Ele é capaz de ensinar (1 Co 2.11,13); e) Ele tem vontade (1 Co 12.11); f) Ele ama (Rm 15.30).

A razão principal de muitos cristãos não viverem em íntimo e profundo relacionamento com o Espírito Santo como Pessoa e como Deus está no hábito mental adquirido de imaginá-lo sempre como algo, e não como Alguém. Toda essa dificuldade que a maioria tem de se relacionar com o Espírito Santo, de vê-lo como uma Pessoa que fala, sente, ouve, ama, é em razão do uso exagerado da simbologia a Ele referente.

Quem está acostumado a só ouvir que o Espírito Santo é como fogo, vento, chuva, orvalho, pomba etc., jamais conseguirá enxergá-lo como uma Pessoa, imaginá-lo-á sempre de forma impessoal. Por essa percepção distorcida em relação a terceira Pessoa da Trindade, um escritor norte-americano denominou o Espírito Santo de “fulano”, no seu livro Pai, Filho e Fulano. Até hoje o Espírito Santo é tratado de forma impessoal, sem que lhe demos a honra, o louvor e a adoração devidos. Não podemos esquecer que o Espírito Santo é o Deus presente entre nós.

A teologia de Jesus acerca do Espírito Santo é bastante clara no Evangelho de João (cf. Jo 16.13,14). A palavra de ordem nesse evangelho é que o Espírito Santo seria enviado em lugar de Jesus para ajudar os homens em todas as suas carências (Jo 14—16). O termo grego aqui traduzido por “outro” é ãllõn, e não hëteron, significando que o Espírito Santo é outro ajudador, separado e distinto de Cristo, embora da mesma “espécie”, e não uma forma distinta ou separada de ajudador.

Ele é a continuação do Senhor Jesus entre nós, embora sob uma manifestação ou presença de categoria diferente. Jesus procurou consolar os seus discípulos mostrando-lhes que, embora fosse ocorrer em breve alguma modalidade de separação entre Ele e os seus seguidores, em outro sentido bem real Ele haveria de permanecer com eles para todo o sempre, porque o Espírito Santo haveria de descer para estar no meio deles e com eles.

João 16.13,14, deixa claro que o relacionamento do Espírito Santo com Jesus seria na mesma base do relacionamento que este mantinha com o Pai. Jesus dizia que nada do que falava era de si mesmo, mas do Pai. Da mesma forma o versículo acima declara que o Espírito Santo tem o mesmo tipo de comportamento para com Jesus. Isso quer dizer que a única maneira de se conhecer o Filho de Deus é por meio da comunhão com o Espírito Santo.

Observe que é exatamente isso o que Jesus revela nas suas clássicas palavras registradas em João 14.7,10: “Se vós me conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai; e já desde agora o conheceis e o tendes visto. […] As palavras que eu vos digo, não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras”.

Comparando esses versículos com os versículos 13 e 14 do capítulo 16 do mesmo evangelho, chegamos às seguintes conclusões:

a) Assim como Jesus veio ao mundo para glorificar o Pai, o Espírito Santo está entre os homens para glorificar Jesus com as suas obras.

b) Assim como Jesus é o Mediador entre Deus e os homens, o Espírito Santo é o Mediador entre Jesus e a sua Igreja.

c) Assim como Jesus não falava de si mesmo, mas do Pai, o Espírito Santo também não fala de si mesmo, mas nos revela tudo o que tem ouvido de Jesus.

d) Assim como Jesus veio ao mundo para revelar o Pai, o Espírito Santo está no mundo para revelar Jesus aos homens.

e) Assim como Jesus nos revela as profundezas de Deus, só o Espírito Santo pode revelar-nos profundamente a Pessoa de Jesus.

f) Assim como Jesus glorificou o Pai em toda a expressão de sua vida e não deixou de ser adorado, louvado, exaltado, o Espírito Santo glorifica a Jesus em todas as suas manifestações, mas isso não impede que Ele receba as nossas orações, adorações, louvores, exaltações, pois Ele é Deus.

g) Assim como Jesus é o único caminho para Deus, o Espírito Santo cumpre o papel de convencer o pecador de que Jesus é o único caminho para Deus.

O batismo com o Espírito Santo

O batismo com o Espírito Santo é uma bênção distinta da salvação. Conquanto a terceira Pessoa da Trindade tenha papel relevante na conversão e passe, desde então, a habitar no novo crente, o Novo Testamento deixa claro que há um momento específico da vida cristã em que o salvo recebe esse batismo, também chamado de revestimento. Essa experiência, toda vez que é mencionada no livro de Atos dos Apóstolos, aparece como algo distinto do novo nascimento (At 2.38; At 11.12-17).

Com o surgimento do neopetencostalismo, vieram também à tona várias teorias diferentes sobre a evidência inicial do batismo no Espírito Santo.

Há quem afirme ser essa evidência uma explosão de alegria, outros inserem no ato de ungir com óleo a garantia do batismo e alguns preferem deixar a questão em aberto, sem determinar uma fórmula específica.

Mas a Bíblia continua sendo o nosso padrão nessa área, identificando o falar em línguas como a evidência inicial do batismo no Espírito. Foi assim no dia de Pentescoste (At 2.1-31). A experiência repetiu-se por ocasião da conversão de Cornélio e de sua família (At 10.45,46), bem como com a chegada do apóstolo Paulo em Éfeso, em sua primeira viagem missionária (At 19.1-6). Nesses casos, o fenômeno que indicava o batismo era o falar em línguas. Mesmo no episódio da evangelização de Samaria, quando os apóstolos impuseram as mãos para que os crentes recebessem o Espírito Santo, fica implícita a idéia de um fenômeno físico, visível, que levou o mágico Simão a ambicionar a possibilidade de exercer o mesmo milagre (At 8.14-24). Pelo contexto de Atos, o que poderia ser senão o falar em línguas? Assim as línguas identificam o crente quando este é batizado no Espírito Santo.

O batismo no Espírito Santo tem como finalidade capacitar o crente para a vida cristã vitoriosa e, sobre tudo, para testemunhar com ousadia sobre a sua fé em Cristo, mesmo nas circunstâncias adversas, em que as convicções espirituais podem até ser provadas pelo martírio. Nessas horas, é o poder advindo do batismo no Espírito Santo que dará força ao crente para suportar a dura prova da perseguição (At 13.44-52).

Por isso, vale a pena estimular os crentes buscar o batismo no Espírito Santo.

Os dons espirituais

O Brasil e o mundo têm vivenciado, nos últimos setenta anos, uma efervescência de dons espirituais, em razão da redescoberta do poder do Espírito Santo. Evidentemente, muitas coisas nos meios pentecostais e neopentecostais são expressões de excessos e de imaturidade, todavia, conquanto precisem de alguns ajustes bíblicos, os movimentos pentecostal e neopentecostal refletem uma ação efetiva, nova e revolucionária do Espírito Santo na vida da igreja atual.

Assuntos tais como milagres, línguas estranhas, profecias, considerados anacrônicos, obsoletos ou verdadeiros apêndices por algumas denominações tradicionais foram redescobertos e liberados das algemas dos dogmas e das sistemáticas denominacionais. O Espírito Santo deixou de ser teoria para ser Alguém real — Deus presente e adorado pela igreja, causando extre¬mo impacto aos denominacionalistas históricos.

Faz-se necessário dizer que esses movimentos divinos vêm sempre como contraponto a uma situação de morbidez, frieza e indiferença na área da devoção, da missão e dos objetivos, razão por que a proposta essencial dos grandes avivamentos da história foi consertar erros de percurso tomados pela Igreja. Assim foi entre o catolicismo e o protestantismo; depois, entre o protestantismo e movimento evangélico; depois, entre o movimento evangélico e o pentecostal. Todas essas mudanças fazem parte do mover de Deus na história, mudando o status quo da Igreja, principalmente quando este já não atende aos apelos do Reino de Deus.

Acerca dos dons espirituais temos cinco considerações a fazer:

1. Não se pode restringir nem absolutizar o número de dons. O Novo Testamento não traz uma lista exaustiva e específica de dons, isso porque cada lista acrescenta algo à outra. Enquanto Romanos 12.6-8, por exemplo, apresenta uma lista característica de dons, 1Coríntios 7.7 exibe outra; já os capítulos 12 e 14 de 1Coríntios apresentam outros dons, que não encontramos nas duas primeiras listas.

Efésios 4.11-13 apresenta uma quarta lista, e, finalmente, 1 Pedro 4.10,11 compõe uma quinta. Ou seja, as listas são diversas — umas com mais, outras com menos dons; umas nas quais faltam dons, outras em que eles são acrescentados. Logo, não devemos dogmatizar a respeito do assunto, afirmando que os dons existentes são aqueles acerca dos quais o Novo Testamento fala. Primeiro, porque o Novo Testamento não nos oferece uma lista exaustiva de dons. Segundo, porque cada escritor deixou de citar uma série, que outros mencionam, o que significa que na mente deles não havia a sistematização que encontramos em alguns livros atuais.

2. Os dons são mais numerosos do que aqueles que o Novo Testamento apresenta. A indicar pelo estudo do Novo Testamento, concluímos que os dons podem ser mais numerosos do que aqueles que comumente aceitamos. De qualquer maneira, porém, todos os dons têm que, fundamentalmente, fazer sentido com o espírito geral da Escrituras. Ou seja, Deus é soberano para prover novas formas de manifestar a sua graça através da vida humana.

3. Dons espirituais são diferentes de talentos naturais e de habilidades adquiridas. Talentos e habilidades podem ser também usados na obra de Deus. No entanto quem os usa apenas de forma natural ficará muito aquém das suas reais possibilidades como homem ou mulher de Deus. Estará também desprezando algo que, afinal de contas, foi providenciado por Deus “a cada um para o que for útil” (1 Co 12.7). E não devemos nos contentar com menos do que aquilo que Deus tem para nós.

4. Dons espirituais não são para transformar pessoas em seres superespirituais nem para tomar alguém melhor ou superior a outros crentes. O batismo no Corpo de Cristo, que é diferente do batismo com o Espírito, coloca-nos em situação de igualdade com os demais membros do Corpo, criando entre nós uma união essencial.

5. Todos os dons são importantes, até os menos aclamados pela teologia sistemática. Temos um problema sério aqui, porque muitos pentecostais tendem a classificar alguns dons como mais importantes que outros. Mas a verdade é que todos obedecem a uma ordem de utilidade comunitária. Apresentamos, a seguir, alguns desses dons não tão proclamados nos meios pentecostais.

a) O dom de serviço (no grego, diakonia, Rm 12.6-8) — Desse vocábulo deriva a palavra “diácono”. Geralmente o termo significa o cuidado das necessidades físicas (At 6.1,2). A pessoa que serve a outrem guiada pelo dom do Espírito, faz, por vezes, o mesmo que outros fariam simplesmente por motivos humanitários. Mas há, sem dúvida, duas diferenças notáveis: o dom espiritual resulta numa maior efetividade, graças ao poder sobrenatural, e o motivo será certamente o que Pedro indicou: “[…] para que em tudo Deus seja glorificado por Jesus Cristo […]”.

b) O dom do ensino (no grego, didakson, Rm 12.6) — Esse dom tem por finalidade instruir e consolidar os outros na verdade do Evangelho. Os dons descritos na lista da Primeira Carta aos Coríntios como “palavra da sabedoria” e a “palavra da ciência [ou do conhecimento]” estão estreitamente relacionados com o dom de ensinar. O ensino não se limita às palavras, é também produzido através do exemplo e da influência sutil do caráter daquele que ministra o ensino.

c) O dom de exortar (Rm 12.6-8) — O termo grego para “exortar” éparakleto, que significa “ajudador” — literalmente, “ir em socorro de alguém” em qualquer necessidade. É uma espécie de “estimulador da fé”.

Encorajamento ou conforto é a aplicação desse dom, “pondo um coração novo” naqueles que tenham sofrido derrotas ou perdas ou que estejam sob provações.

d) O dom de contribuir — Significa mais do que dar no sentido filantrópico. Significa dar com o coração cheio do amor de Deus. Isso significa que esse dom vai além da mordomia cristã.

e) O dom de presidir (ou governo, Rm 12.8). Literalmente, significa “tomar o comando ou diretivas de qualquer grupo”. Duas palavras são utilizadas no Novo Testamento com respeito a esse dom: proístemi (Rm 12.8) e kybérnesis (1 Co 12.28). A primeira significa “estar à frente, comandar”, e a segunda, “administrar”, conceitos que se entrelaçam. A palavra adjetivamente relacionada ao dom de presidir é “diligentemente”, isto é, com sinceridade, zelo, e de forma metódica. O governo exige visão, paciência, consistência quanto a objetivos e força de von¬tade para continuar quando outros desistem. Quem governa deve governar em cima de cada situação, ser interessado, não afrouxar nos padrões de controle, estar sempre à frente, tocando as coisas com garra. É também quem planeja e induz os outros a se empenharem na realização dos planos. É uma espécie de organizador de programas.

f) O dom da compaixão (Rm 12.8) — O portador desse dom sente alegria, tem empatia, se compadece da dor do próximo, é misericordioso para com os irmãos, ajuda quem não tem condições de ajudar-se a si mesmo. O dom da compaixão move as ações sociais mais sublimes.

g) O dom do socorro (1 Co 12.28) — Os que possuem tal dom geralmente investem a sua vida na perspectiva de serviço aos cristãos em dificuldades. São aquelas pessoas que receberam do Espírito Santo a sensibilidade para detectar problemas sérios, pressentir onde estão os verdadeiros carentes, experimentando prazer em permanecer junto deles.

A segunda lista paulina de dons espirituais encontra-se em 1 Coríntios 12.7-11. Algumas diferenças apreciáveis são evidentes quando a comparamos com a lista da Carta aos Romanos. O único dom comum às duas listas é o da profecia, o qual Paulo considera, em 1 Coríntios 14, superior aos demais. Sugeriu-se que os dons mencionados na Carta aos Romanos são parte da vida cotidiana da comunidade cristã, sendo que a esse grupo de dons pertenceriam os mais extraordinários, os mais transitórios e os menos universais. O fato de as listas serem tão diferentes mostra-nos que os dons espirituais abarcam um número de capacidades para muito além do que aquilo que geralmente pensamos. É possível que a diferença existente entre as duas listas sugira a situação de cada uma das igrejas a que Paulo escreveu. A igreja em Roma parece ter sido uma comunidade bem mais estável e espiritual. Não estava envolvida em lutas internas nem sob o ataque de doutrinas heréticas. A igreja em Corinto, ao contrário, era a que dava mais problemas na época. Estava dividida em facções (1 Co 1.10—3.23), revoltada contra a autoridade de Paulo (4.1-21), maculada pela imoralidade (5.1-13) e por litígios (6.1-8). As suas ceias haviam-se convertido em glutonarias e bebedices (11.8-34). Doutrinas heréticas eram toleradas até o ponto de uma negação geral da ressurreição (15.1-8). Nota-se uma melhoria no intervalo entre a primeira e a segunda epístola, mas ainda estava muito longe de ser uma igreja estável (2 Co 13.1-10).

8

SOBRE A SEGUNDA VINDA DE CRISTO

 

Cremos na segunda vinda premilenial de Cristo, em duas fases

distintas. A primeira, invisível ao mundo, para arrebatar a sua

Igreja da terra, antes da grande tribulação; a segunda,

visível e corporal, com sua Igreja glorificada, para

reinar sobre o mundo durante mil anos

(Zc 14.5; 1 Ts 4.16, 17; 1 Co 15.51-54; Jd 14; Ap 20.4).

 

Há alguns aspectos a destacar sobre a vinda de Jesus Cristo que formam o alicerce da doutrina escatológica exarada nas Escrituras Sagradas, das quais não podemos nos afastar, pelo fato de serem o cerne da doutrina sobre as últimas coisas. Se não, vejamos:

O fato de sua vinda

O fato da vinda de Jesus é mencionado mais de trezentas vezes no Novo Testamento. O apóstolo Paulo refere-se ao evento umas cinqüenta vezes. A vinda de Jesus é uma das mais importantes doutrinas do Novo Testamento. Assim disse o apóstolo dos gentios: “Se esperarmos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens” (1 Co 15.19).

Á maneira de sua vinda

Será de maneira pessoal (Jo 14.3; At 1.10,11; 1 Ts 4.16; Hb 9.28; Ap 22.7). Há quem discorde da opinião de que a vinda de Jesus seja literal e pessoal. Outros há que ensinam que a morte é a segunda vinda de Jesus. A Bíblia mostra, porém, que a segunda vinda de Jesus não tem nada a ver com a morte, pois os mortos em Cristo ressuscitarão nessa ocasião. Quando o crente parte para a eternidade, ele vai para a presença de Deus, mas na vinda de Jesus é Ele que vem para nos buscar (Fp 3.20,21). Alguns sustentam que a vinda de Jesus foi a descida do Espírito Santo no dia de Pentecoste. Outros, no entanto, ensinam que Cristo veio no tempo da destruição de Jerusalém, no ano 70 d.C.

Nenhuma dessas afirmações tem base bíblica. Na vinda de Jesus, haverá duas coisas importantíssimas: a ressurreição dentre os mortos e a transformação dos crentes que estiverem vivos. Esses dois fatos não ocorreram ainda, mas acontecerão no dia da vinda de Jesus. (1 Ts 4.16-18).

A vinda de Jesus, ainda que oculta aos olhos do mundo, será literal e pessoal. Isso é possível porque, após a sua ressurreição, Jesus foi visto diversas vezes pelos discípulos. Porém, o mundo não o viu sequer uma vez. Enquanto a vinda de Jesus será motivo de glória para aqueles que o esperam, será de sofrimento e agonia para os ímpios.

 

O tempo de sua vinda

Muitos já tentaram determinar a data da vinda de Jesus, mas em nenhuma delas “o Senhor veio na hora marcada” pelos homens. Antes, os que tentaram estabelecer datas ficaram envergonhados pelo fato de Jesus não ter vindo segundo suas previsões. “Não vos pertence saber os tempos ou as estações que o Pai estabeleceu pelo seu próprio poder” (At 1.7).

O dia da vinda de Jesus não foi revelado a ninguém. É um mistério oculto em Deus que será revelado somente quando Jesus vier. Nós sabemos como será, mas não sabemos quando será (Mt 24.36). Segundo o que diz a Escritura, o arrebatamento da Igreja terá lugar no céu e nas nuvens (1 Co 15.51,52; 1 Ts 4.16). A palavra de Deus revela-nos que será de forma repentina.

Os destaques da vinda de Jesus

Há uma diferença entre o arrebatamento e a vinda de Jesus em glória. Primeiro Ele vem para os seus (Jo 14.3). Depois, Ele vem com os seus (Mt 24.30; Ap 1.7).

O Tribunal de Cristo

Após o encontro da Igreja com o Senhor Jesus nos ares, por ocasião do arrebatamento (1 Ts 4.17), o povo de Deus que foi arrebatado, já com o corpo glorificado, comparecerá perante o Tribunal de Cristo (2 Co 5.10), para que as suas obras realizadas na terra, atra¬vés do corpo, em prol da causa do Evangelho, sejam aprovadas (1 Co 3.12-15), a fim de que recebam (ou não) galardão.

Em Apocalipse 22.12 está escrito: “E eis que cedo venho, e o meu galardão está comigo para dar a cada um segundo a sua obra”. Paulo faz referência a isso em 2 Timóteo 4.8, quando diz que a “coroa da justiça” lhe será entregue. Pedro diz que “quando aparecer o Sumo Pastor, alcançareis a incorruptível coroa de glória” (1 Pe 5.4).

No Tribunal de Cristo todos os que foram arrebatados — ressuscitados e transformados —, irão receber galardão “segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem ou mal” (2 Co 5.10).

O que será julgado

Não se trata de julgamento dos pecados, pelo fato de terem sido eles julgados em Cristo por ocasião de sua morte (1 Jo 1.7; 1 Pe 2.24), pois Jesus não recorda jamais aquilo que perdoou (Hb 8.12). No Tribunal de Cristo, o julgamento não será de condenação (Rm 8.1; Jo 5.24), mas da qualidade do trabalho prestado na obra de Deus (1 Co 3.12,13). Por outro lado, se o ser-viço prestado foi tão-somente para a glória pessoal, haverá detrimento (1 Co 3.13-15), mas não estará em jogo a salvação, somente o prejuízo de não se receber galardão (Mt 6.2,5,16).

9

SOBRE O JUÍZO VINDORO

Cremos no juízo vindouro que recompensarei os

fiéis e condenará os infiéis

(Ap 20.11-15).

A segunda vinda de Jesus, na sua segunda fase, também resultará no grande julgamento final. Para muitos, essa é uma das perspectivas mais assustadoras com respeito ao futuro. Mas, enquanto os ímpios entram em perplexidade por causa da esmagadora realidade do Juízo Final, os cristãos fiéis, ao contrário, aguardam o fato com alegria e efusivo júbilo.

Os objetivos do Juízo Final

Ao estudarmos sobre o Juízo Final na Bíblia Sagrada, devemos ter em mente que seu objetivo não é verificar nossa condição ou estado espiritual, pois Deus já o conhece. Antes, seu objetivo é manifestar publicamente a nossa condição.

Interpretações

Alguns interpretam o Juízo Final de forma cíclica, como se os eventos que ocorrem dentro da história fossem, na realidade, um julgamento sobre o mundo. É de Friedrich Schelling a idéia de que a história do mundo é o julgamento do mundo.

Contra essa opinião, a Bíblia tem a dizer o seguinte:

O Juízo Final é um evento definido que ocorrerá no futuro. Jesus aludiu a ele em Mateus 11.24: “Porém eu vos digo que haverá menos rigor para os de Sodoma, no Dia do Juízo, do que para ti”.

As Escrituras especificam que o julgamento ocorrerá após a segunda vinda de Cristo. Jesus disse: “Porque o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e, então, dará a cada um segundo as suas obras” (Mt 16.27). Essa idéia também é encontrada em Mateus 13.37-43, 24.29-35, 25.31-46 e 1 Coríntios 4.5.

Quando ocorrerá o Juízo Final

De acordo com a Palavra de Deus, o juízo do trono branco (Ap 20.11,12) acontecerá no “fim” (1 Co 15.24), após o Milênio, quando a última revolta de Satanás tiver sido esmagada (Ap 20.10,11).

Deus é juiz (Rm 2.16), mas deu ao Filho o direito de julgar (Jo 5.22,27; At 10.42). Jesus, que esteve na terra, enviado por Deus como Salvador e com autoridade para perdoar pecados, agora aparece no Apocalip¬se como Juiz para julgar (1 Pe 4.5). No julgamento final, a Igreja glorificada terá a sua participação (1 Co 6.2,3).

Haverá ressurreição dos mortos (Jo 5.28,29). Essa ressurreição é distinta daquela que se dará no dia do arrebatamento (1 Ts 4.16), pois se trata da ressurreição de todos os mortos, desde Adão.

Quem comparecerá diante do trono branco

Todos os que morreram do princípio da criação até o fim do Milênio, ressuscitarão naquele dia e comparecerão diante do trono branco (Ap 20.11,15) para serem julgados.

O Juiz do trono branco

Embora se fale em Deus como o Juiz (Hb 12.23), fica evidente, por algumas referências, que Ele delegará essa autoridade ao Filho. Jesus mesmo disse: “O Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o juízo. E deu-lhe o poder de exercer juízo, porque é o Filho do Homem” (Jo 5.22,27; cf. At 10.42). Paulo afirma que Cristo julgará os vivos e os mortos: “Conjuro-te, pois, diante de Deus e do Senhor Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, na sua vinda e no seu Reino” (2 Tm 4.1).

Conquanto não saibamos os detalhes, há referênci¬as claras na Bíblia de que a Igreja tomará parte do julgamento final. Em Mateus 19.28 e Lucas 22.28-30, Jesus dá a entender que os discípulos julgarão as 12 tribos de Israel. Também lemos que os crentes se assentarão em tronos e julgarão o mundo (1 Co 6.2,3; Ap 3.21; 20.4).

Todos os anjos malignos serão julgados

Assim como todos os ímpios serão julgados (Mt 25.32; 2 Co 5.10; Hb 9.27), todos os anjos malignos serão julgados nessa ocasião. Pedro escreve que “Porque, se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas,havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadei¬as da escuridão, ficando reservados para o Juízo” (2 Pe 2.4). Judas 6 traz uma declaração quase idêntica. Os anjos bons, por outro lado, participarão do julga-mento, tendo a responsabilidade de reunir todos os que serão julgados (Mt 13.41; 24.31).

O julgamento do trono branco é irreversível

Uma vez concluído, o julgamento será permanente e irrevogável. Os justos e os ímpios serão enviados para as suas respectivas habitações, que serão definitivas. Não há indício de que o veredicto possa ser mudado. Ao concluir seu ensino sobre o julgamento final, Jesus disse que os que estiverem à sua esquerda irão “para o tormento [castigo] eterno”, mas os justos ingressarão na “vida eterna” (Mt 25.46).

10

SOBRE A VIDA ETERNA

Cremos na vida eterna de gozo, de justiça e felicidade para os

fiéis e de tristeza e tormento para os infiéis

(Ap 20.11-15).

 

Novo Testamento acentua mais a ressurreição do corpo do que aquilo que acontece imediatamente depois da morte. A morte continua sendo uma inimiga cruel, mas já não é para ser temida (1 Co 15.55-57; Hb 2.15). Para o crente, o viver é Cristo e o morrer é lucro. Isso significa que morrer é receber mais de Cristo (Fp 1.21). Logo, morrer e estar com Cristo é muito melhor que permanecer no corpo presente, embora devamos ficar aqui enquanto Deus considera que isso seja necessário (Fp 1.23,24). Depois disso, a morte nos trará o repouso ou cessação das nossas labutas e sofrimentos terrestres e a entrada na glória (2 Co 4.17; cf. 2 Pe 1.10,11; Ap 14.13). ***

A descrição que Jesus faz em Lucas 16 sobre o pós-morte é reveladora e de extremo impacto. Em primeiro lugar, mostra que os destinos tanto dos ímpios quanto dos justos não poderão ser mudados depois da morte. E, em segundo lugar, que depois da morte se segue o juízo (Hb 9.27).

O inferno como lugar de tormento eterno

Embora o homem moderno tenha dificuldades para entender a doutrina bíblica sobre o inferno, as Escrituras afirmam-lhe uma existência real. Não se trata apenas de um estado subjetivo da pessoa sem Cristo no além, e sim de um lugar. Muitas passagens bíblicas dão conta de sua existência como um lugar para onde os ímpios irão (Mt 25.41,46; Mc 9.45,46; Lc 16.19-31; 2 Ts 1.7-9; Ap 20.10; 21.8).

Conforme Zacarias de Aguiar, o termo mais usado para designar o destino final dos ímpios sugere uma localidade. A idéia de punição eterna é derivada da palavra hebraica ge hinnon (“vale de Hinom”) e do seu correspondente grego gehenna, termo que é tra¬duzido por “inferno” e que originalmente indicava um vale próximo de Jerusalém, o vale de Hinom, onde os pagãos sacrificavam os seus filhos ao ídolo Moloque. Depois passou a ser um vale onde as impurezas da cidade eram queimadas diuturnamente, com fogo que nunca se apagava. Assim, gehenna (“inferno”) passou a ser um lugar de imundícies e de destruição, transformando-se num símbolo do juízo divino. ****

No Novo Testamento, gehenna é visto como uma “fornalha de fogo” onde “haverá pranto e ranger de dentes” (Mt 13.42,50), lugar “onde o seu bicho não morre, e o fogo nunca se apaga” (Mc 9.48). O inferno é lugar de castigo escatológico de eterna duração (Mt 25.46). É o lugar de castigo para os ímpios bem como para satanás e os demônios (Mt 25.41), a besta e o falso profeta (Ap 19.20; 20.10) e também a morte (Ap 20.14). Outras expressões equivalentes são “fogo eterno”, “lago de fogo”, “lago ardente de fogo e enxofre”. Inferno, portanto, é um lugar real.

 

Destinações diferentes

Em Daniel 12.2 lemos: “E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno” (grifo nosso).

Esse versículo, como tantos outros pronunciados por Jesus Cristo, no Novo Testamento, revela que após o julgamento final o destino dos justos será um, e o dos ímpios, outro. Os justos irão para o descanso eterno, e os injustos, para o tormento eterno.

Lucas 16 mostra a irreversibilidade desse fato. O rico, que representa todos aqueles que vivem para si mesmos, numa total indiferença em relação a Deus e aos apelos do seu Reino, foi lançado no inferno. Mas Lázaro, representante de todos os que confiam em Deus e vivem para agradar-lhe, foi para o seio de Abraão. Assim, é mais do que evidente que haverá diferença de destinação entre os que servem a Deus e os que não servem. Vejamos isso mais de perto:

O estado final dos ímpios

Segundo Stanley Horton, o destino final dos ímpios é descrito na Bíblia como algo terrível e que vai além de toda imaginação. São as “trevas exteriores”, onde haverá choro e ranger de dentes por causa da frustração e do remorso ocasionados pela ira de Deus (Mt 22.13; 25.30; Rm 2.8,9; Jd 13). É uma “fornalha de fogo” (Mt 13.42,50), onde o fogo pela sua natureza é inextinguível (Mc 9.43; Jd 7). Causa perda eterna, ou destruição perpétua (2 Ts 1.9), e a “fumaça do seu tormento sobe para todo o sempre” (Ap 14.11).

De acordo com o relato bíblico, a situação dos ímpios é de separação total de Deus. A fé, a esperança e o amor, que sempre permanecem para nós (1 Co 13.13) faltarão naquele ambiente. O repouso do qual desfrutaremos nunca estará à disposição deles e nem a alegria e a paz que nosso Senhor concede àqueles que crêem. Será, também, um lugar de solidão, excluído da comunhão com Deus. E a amargura e o ranger dos dentes, bem como sua natureza caída e imutável, impedirão a comunhão uns com os outros. *****

O estado final dos justos

Há várias maneiras de notar a condição futura dos justos. A mais comum, obviamente, é “céu”. As palavras para “céu”, no hebraico e no grego (shãmayin e ouranos), são empregadas basicamente de três maneiras na Bíblia: a) para designar o universo inteiro (Gn 1.1), numa perspectiva cosmológica; b) como um sinônimo de Deus (Lc 15.18,21) e c) para designar a morada de Deus (Mt 6.9; Jo 14.1-6).

Segundo a Bíblia, o céu será caracterizado pela re-moção de todos os males. Estando com as pessoas, Deus “limpará de seus olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor, porque já as primeiras são passadas” (Ap 21.4). Não apenas as aflições, mas também a própria fonte do mal, aquele que nos tenta para o pecado, será condenado eterna-mente: “E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde está a besta e o falso profeta; e de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre” (Ap 20.10). A presença do Deus perfeita-mente santo e do Cordeiro sem mácula significa que no céu não haverá pecado ou mal de espécie alguma. Sabemos relativamente pouco sobre as atividades dos remidos no céu, mas há uns poucos lampejos do que será a nossa existência futura. Uma qualidade de nossa vida no céu será o descanso. O descanso, tal como o termo é empregado em Hebreus, não é um mero cessar das atividades, mas a experiência de alcançar um alvo de importância crucial. Assim, há referências freqüentes à peregrinação pelo deserto na rota para o “descanso” da Terra Prometida (Hb 3.11,18). Um descanso semelhante aguarda os crentes (Hb 4.9-11).

O céu, portanto, será o encerramento da peregrinação do cristão, o fim da luta contra a carne, o mundo e o diabo. Haverá trabalho a fazer, mas isso não implicará luta para superar forças contrárias. ******

Um reino de vida eterna

Não será um reino de imortalidade, porque imortais todos já somos agora. A vida eterna, conforme referida nas Escrituras, não é apenas a imortalidade. De quem estiver no inferno, dir-se-á que está na morte eterna. No entanto, essa morte eterna não é inexistência. Na Bíblia, morte não é sinônimo de inexistência. Estar morto é estar sem vida. Mas para entendermos isso é preciso que saibamos que, para Deus, vida não é sinônimo de existência e morte significa alienação da verdadeira vida que só se vive em Deus e como Deus.

A vida eterna é a existência em Deus e com Deus para sempre. A morte eterna é a existência fora de Deus e diferente de Deus para sempre. O inferno da alma será descobrir que a vida só é vida em Deus e com Deus e ter que assumir uma eterna existência exilada dessa condição desprezada na história.

*** Horton, Stanley M. Teologia. Sistemática: uma perspectiva pentecostal

**** Severa, Zacarias de Aguiar. Manual de teologia sistemática. Ed AD Santos

***** Horton, Stanley M. Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal

****** Erickson, Millard J. Introdução à teologia sistemática.

 

BIBLIOGRAFIA

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BRAATEN, Cari E.; JENSON, Robert W. Dogmática cristã. Porto Alegre: Sinodal, s.d.

CLARCK David S. Compêndio de teologia sistemática. 5. ed.São Paulo: Cultura, s.d.

ERICKSON, Millard J. Introdução à teologia sistemática. São Paulo: Vida Nova, s.d.

GIBELLINI, Rosino. A teologia do século XX. São Paulo: Loyola, s.d.

HORTON, Stanley M., ed. ger. Teologia sistemática: uma perspectiva PentecostalRio de Janeiro: CPAD, 1996.

HORTON, Stanley M. Doutrinas bíblicas: uma perspectiva pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1996.

LANGSTON, A. B. Esboço de teologia sistemática. 8. ed. Rio de Janeiro: Juerp, s.d.

LIBANIO, João Batista. Eu creio, nós cremos. São Paulo: Loyola, s.d.

PEARLMAN, Myer. Conhecendo as doutrinas da Bíblia. 3.ed. São Paulo: Vida, s.d.

SEVERA, Zacarias de Aguiar. Manual de teologia sistemática. Curitiba: Assembléia de Deus em Santos, s.d.

VERMES, Geza. A religião de Jesus. 7. ed. São Paulo: Imago, s.d.

WEGNER, Uwe. Exegese do Novo Testamento. Sinodal.

 

Colaboradores

Pr. Antônio Silva

Pr. Isaque Strobel

Pr. Geremias do Couto

Revisão Doutrinaria

Pr. Paulo Roberto Freire da Costa

(Presidente do Conselho de Doutrina)

Pr. Paulo Cesar Lima da Silva

(Secretário do Conselho de Doutrina)

Pr. Dionísio Ignácio Rocha

Revisão de estilo

Pr. Paulo César Lima da Silva

Digitadores

Sandra Pinheiro

Anderson Pereira

Alexandre F. Lima da Silva

Capa e Projeto Gráfico

Flamir Ambrósio

Editoração Eletrônica

Olga Rocha dos Santos

Preparação dos originais

Judson Canto

Revisão de Provas

Alexandre Coelho

As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Revista e Corrigida, Edição de 1995 da Sociedade Bíblica do Brasil, salvo indicação em contrário.

 

Casa Publicadora das Assembléias de Deus

Caixa Postal 331

20001-970 Rio de Janeiro, RJ, Brasil – 6ª Edição 2004.

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História das Assembleias de Deus no Brasil

“Pouco tempo depois, Gunnar Vingren participou de uma convenção de igrejas batistas, em Chicago. Essas igrejas aceitaram o Movimento Pentecostal. Ali ele conheceu outro jovem sueco que se chamava Daniel Berg. Esse jovem também fora batizado com o Espírito Santo.

Após uma ampla troca de informações, experiências e idéias, Daniel Berg e Gunnar Vingren descobriram que Deus os estava guiando numa mesma direção, isto é: o Senhor desejava enviá-los com a mensagem do Evangelho a terras distantes, mas nenhum dos dois sabia exatamente para onde seriam enviados.

Algum tempo depois, Daniel Berg foi visitar o pastor Vingren em South Bend. Durante aquela visita, quando participavam de uma reunião de oração, o Senhor lhes falou, através de uma mensagem profética, que eles deveriam partir para pregar o evangelho e as bênçãos do avivamento pentecostal. O lugar tinha sido mencionado na profecia: Pará. Nenhum dos presentes conhecia aquela localidade. Após a oração, os dois jovens foram a uma biblioteca à procura de um mapa que lhes indicasse onde o Pará estava localizado. Foi quando descobriram que se tratava de um estado do Norte do Brasil”.

História das Assembléias de Deus no Brasil, Emílio Conde – CPAD

No início do século XX, apesar da presença de imigrantes alemães e suíços de origem protestante e do valoroso trabalho de missionários de igrejas evangélicas tradicionais, nosso país era ainda quase que totalmente católico.

A origem das Assembléias de Deus no Brasil está no fogo do reavivamento que varreu o mundo por volta de 1900, início do século 20, especialmente na América do Norte. Os participantes desse reavivamento foram cheios do Espírito Santo da mesma forma que os discípulos e os seguidores de Jesus durante a Festa Judaica do Pentecostes, no início da Igreja Primitiva (Atos cap. 2). Assim, eles foram chamados de “pentecostais”.

Exatamente como os crentes que estavam no Cenáculo, os precursores do reavivamento do século 20 falaram em outras línguas que não as suas originais quando receberam o batismo no Espírito Santo. Outras manifestações sobrenaturais tais como profecia, interpretação de línguas, conversões e curas também aconteceram (Atos cap. 2).

Em 19 de novembro de 1910, os jovens suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg aportaram em Belém, capital do estado do Pará, vindos dos EUA. A princípio, freqüentaram a Igreja Batista, denominação a que ambos pertenciam nos Estados Unidos. Eles traziam a doutrina do batismo no Espírito Santo, com a glossolalia – o falar em línguas estranhas – como a evidência inicial. A manifestação do fenômeno já vinha ocorrendo em várias reuniões de oração nos EUA (e também de forma isolada em outros países), principalmente naquelas que eram conduzidas por Charles Fox Parham, mas teve seu apogeu inicial através de um de seus principais discípulos, um pastor negro leigo, chamado William Joseph Seymour, na Rua Azusa, Los Angeles, em 1906.

Quando Daniel Berg e Gunnar Vingren, chegaram ao Brasil, ninguém poderia imaginar que aqueles dois jovens suecos estavam para iniciar um movimento que alteraria profundamente o perfil religioso e até social do Brasil por meio da pregação de Jesus Cristo como o único e suficiente Salvador da Humanidade e a atualidade do batismo no Espírito Santo e dos dons espirituais. As denominações evangélicas existentes na época ficaram bastante incomodadas com a nova doutrina dos missionários, principalmente por causa de alguns irmãos que se mostravam abertos ao ensino pentecostal. Celina de Albuquerque, na madrugada do dia 18 de junho de 1911 foi a primeira crente da igreja Batista de Belém a receber o batismo no Espírito Santo, o que não demorou a ocorrer também com outros irmãos. A nova doutrina trouxe muita divergência naquela comunidade, pois um número cada vez maior de membros curiosos visitava a residência de Berg e Vingren, onde realizavam reuniões de oração. Enquanto um grupo aderiu, outro rejeitou. Assim, em duas assembléias distintas, conforme relatam as atas das sessões, os dezenove adeptos do pentecostalismo foram desligados. Convictos e resolvidos a se organizar, em 18 de junho de 1911, juntamente com os missionários estrangeiros, fundaram uma nova igreja e adotaram o nome de Missão da Fé Apostólica. Este foi o primeiro nome dado ao Movimento Pentecostal nos Estados Unidos a partir de 1901 e era também empregado pelo movimento de Los Angeles, mas sem qualquer vínculo administrativo da nova igreja brasileira com William Joseph Seymour. A partir de então, passaram a reunir-se na casa de Celina de Albuquerque. Mais tarde, em 18 de janeiro de 1918 a nova igreja, por sugestão de Gunnar Vingren, foi registrada como Assembléia de Deus, em virtude da fundação das Assembléias de Deus nos Estados Unidos, em 1914, em Hot Springs, Arkansas, mas, outra vez, sem qualquer ligação institucional entre ambas as igrejas.

Em poucas décadas, a Assembléia de Deus, a partir de Belém do Pará, onde nasceu, começou a penetrar em todas as vilas e cidades até alcançar os grandes centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre. As Assembléia de Deus se expandiram pelo Estado do Pará, alcançaram o Amazonas, propagaram-se para o Nordeste, principalmente entre as camadas mais pobres da população. Chegaram ao Sudeste pelos idos de 1922, através de famílias de retirantes do Pará, que se portavam como instrumentos voluntários para estabelecer a nova denominação aonde quer que chegassem. Nesse ano, a igreja teve início no Rio de Janeiro, no bairro de São Cristóvão, e ganhou impulso com a transferência de Gunnar Vingren, de Belém, PA, em 1924, para a então capital da República. Um fato que marcou a igreja naquele período foi a conversão de Paulo Leivas Macalão, filho de um general, através de um folheto evangelístico. Foi ele o precursor do assim conhecido Ministério de Madureira, como veremos adiante.

A influência sueca teve forte peso no início da formação assembleiana brasileira, em razão da nacionalidade de seus fundadores, e graças à igreja pentecostal escandinava, principalmente a Igreja Filadélfia de Estocolmo, que, além de ter assumido nos anos seguintes o sustento de Gunnar Vingren e Daniel Berg, enviou outros missionários para dar suporte aos novos membros em seu papel de fazer crescer a nova Igreja. Desde 1930, quando se realizou a primeira Convenção Geral dos pastores na cidade de Natal, RN, as Assembléias de Deus no Brasil passaram a ter autonomia interna, sendo administrada exclusivamente pelos pastores residentes no Brasil, sem contudo perder os vínculos fraternais com a igreja na Suécia. A partir de 1936 a igreja passou a ter maior colaboração das Assembléias de Deus dos EUA através dos missionários enviados ao país, os quais se envolveram de forma mais direta com a estruturação teológica da denominação.

Em virtude de seu fenomenal crescimento, os pentecostais começaram a fazer diferença no cenário religioso brasileiro. De repente, o clero católico despertou para uma possibilidade jamais imaginada: o Brasil poderia vir a tornar-se, no futuro, uma nação protestante. Tal possibilidade se tornou ainda mais real com a divulgação entre o final de 2006 e início de 2007 por um instituto de pesquisa de que, com vinte milhões de fiéis, o Brasil é o maior país pentecostal do mundo.

O que são as Assembléias de Deus

As Assembléias de Deus são uma comunidade protestante, segundo os princípios da Reformada Protestante pregada por Martinho Lutero, no século 16, contra a Igreja Católica. Cremos que qualquer pessoa pode se dirigir diretamente a Deus baseada na morte de Jesus na cruz. Este é um relacionamento pessoal e significativo com Jesus. Embora sejamos menos formais em nossa adoração a Deus do que muitas denominações protestantes, a Assembléia de Deus se identifica com eles na fundamentação bíblica-doutrinária, com exceção da doutrina pentecostal (Hebreus 4.14-16; 6.20; Efésios 2.18).

As Assembléias de Deus são uma igreja evangélica pentecostal que prima pela ortodoxia doutrinária. Tendo a Bíblia como a sua única regra de fé e prática, acha-se comprometida com a evangelização do Brasil e do mundo, conformando-se plenamente com as reivindicações da Grande Comissão.

A doutrina que distingue as Assembléias de Deus de outras igrejas diz respeito ao batismo no Espírito Santo. As Assembléias de Deus crêem que o batismo no Espírito Santo concede aos crentes vários benefícios como estão registrados no Novo Testamento. Estes incluem poder para testemunhar e servir aos outros; uma dedicação à obra de Deus; um amor mais intenso por Cristo, sua Palavra, e pelos perdidos; e o recebimento de dons espirituais (Atos 1.4,8; 8.15-17).

As Assembléias de Deus crêem que quando o Espírito Santo é derramado, ele enche o crente e fala em línguas estranhas como aconteceu com os 120 crentes no Cenáculo, no Dia de Pentecoste. Embora esta convicção pentecostal seja distintiva, as Assembléias de Deus não a têm como mais importante do que as outras doutrinas (Atos 2.4).

O seu Credo de Fé realça a salvação pela fé no sacrifício vicário de Cristo, a atualidade do batismo no Espírito Santo e dos dons espirituais e a bendita esperança na segunda vinda do Senhor Jesus. Consciente de sua missão, as Assembléias de Deus não prevalecem do fato de ter, segundo dados do IBGE (Censo 2000), mais de oito milhões de membros. Apesar de sua força e penetração social, optou por agir profética e sacerdotalmente. Se por um lado, protesta contra as iniqüidades sociais, por outro, não pode descuidar de suas responsabilidades intercessórias.

Sua estrutura Administrativa

As Assembléias de Deus estão organizadas em forma de árvore, onde cada Ministério é constituído pela Igreja-Sede com suas respectivas igrejas filiadas, congregações e pontos de pregação.

As igrejas Assembléias de Deus atuam em cada lugar sem estarem ligadas administrativamente à uma instituição nacional. A ligação nacional entre as igrejas é feita através dos seus pastores que são filiados a convenções estaduais que, por sua vez, se vinculam a uma Convenção de caráter nacional.

Em cada estado os pastores estão ligados a convenções regionais e a ministérios. Essas convenções, em geral, credenciam evangelistas e pastores, cuidam de assuntos da liderança e de direção das igrejas. Essas convenções operam um tipo de liderança regional entre a igreja local e a Convenção Geral.

A Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil (CGADB) é dirigida por uma Mesa Diretora, eleita a cada dois anos numa Assembléia Geral. Para várias áreas de atividades das Assembléias de Deus a CGADB tem um conselho ou uma comissão. Desta forma, existem o Conselho Administrativo da Casa Publicadora (CPAD), o Conselho de Educação e Cultura Religiosa, o Conselho de Doutrinas, o Conselho Fiscal, o Conselho de Missões, a Secretaria Nacional de Missões (SENAMI), a Escola de Missões das Assembléias de Deus (EMAD) e a Faculdade Evangélica de Tecnologia, Ciências e Biotecnologia da CGADB (FAECAD).

A CGADB possui sede no Rio de Janeiro e pode ser considerada o tronco da denominação por ser a entidade que desde o princípio deu corpo organizacional à Igreja, e a quem pertence a patente do nome no país.

As Assembléias de Deus brasileira tem passado por várias cisões que deram origem a diversas convenções e ministérios, com administração autônoma, em várias regiões do país. O mais expressivo dos ministérios é o Ministério de Madureira, cuja igreja já existia desde os idos da década de 1930, fundada pelo pastor Paulo Leivas Macalão e que, em 1958, serviu de base para a estruturação nacional do Ministério por ele presidido, até a sua morte, no final de 1982. Ela deu origem à seguinte entidade:

Convenção Nacional das Assembléias de Deus no Brasil – Ministério de Madureira

À medida que os anos se passavam, os pastores do Ministério de Madureira (assim conhecido por ter sua sede no bairro de mesmo nome, no Rio de Janeiro), sob a liderança do pastor (hoje bispo) Manoel Ferreira, se distanciavam das normas eclesiásticas da CGADB, segundo a liderança da época, que, por isso mesmo, realizou uma Assembléia Geral Extraordinária em Salvador, BA, em setembro de 1989, onde esses pastores foram suspensos até que aceitassem as decisões aprovadas. Por não concordarem com as exigências que lhes eram feitas, se organizaram numa nova entidade, hoje com cerca de 2 milhões de membros, no Brasil e exterior. Dessa forma surgiu a Convenção Nacional das Assembléias de Deus no Brasil – Ministério de Madureira – CONAMAD, fundada em 1988.

Outros ramos

Há, ainda, vários ministérios e um grande número de igrejas independentes que usam a nomenclatura Assembléia de Deus, em diversas regiões do país, que atuam sem vinculação com a CGADB ou com a CONAMAD.
O Compromisso com a Proclamação da Palavra de Deus

Sendo uma comunidade de fé, serviço e adoração, as Assembléias de Deus não podem furtar-se às suas obrigações – proclamar o evangelho de Cristo e promover espiritual, moral e socialmente o povo de Deus. Somente assim, estaremos nos firmando, definitivamente, como agência do Reino de Deus.

As Assembléias de Deus não são a única igreja. Deus está usando muitos outros para alcançar o mundo para Ele. Nos cenários brasileiro e mundial somos uma das muitas denominações comprometidas em conduzir crianças, adolescentes, jovens e adultos a Cristo.

Nossa oração nas Assembléias de Deus é que sejamos usados por Deus para ajudar os perdidos e propiciar um ambiente onde o Espírito Santo possa realizar sua obra especial na vida dos que crêem.

Para mais informações, visite o site da CGADB: http://www.cgadb.com.br

Fonte: CPAD, Wikipedia e Dicionário do Movimento Pentecostal

A Formosa Jerusalém